terça-feira, fevereiro 28, 2006

A semana vista ao longe!

Depois de um dia intenso faltaram-me as palavras. Mas nada melhor que recordar e realçar acontecimentos que para mim foram marcantes na semana passada.
Há uma notícia que, pela violência moral, marcou o país, ou pelo menos marcou-me a mim a esta distância: A morte por apedrejamento de um sem abrigo no Porto. A situação ganhou naturalmente outros contornos devido à orientação sexual da vítima e, é claro, à idade dos criminosos.
É uma pena que sejam necessários tais actos de violência para que muito seja posto em causa. Em primeiro lugar o facto de a lei portuguesa não considerar crime de ódio (e respectiva agravante penal) crimes relacionados com orientação sexual. Não estou a dizer que este tenha sido o caso, mas foi preciso um "famoso" homossexual da noite do Porto ter sido morto à pedrada para que este vazio penal seja posto às claras!
Por outro lado veio levantar mais uma vez a questão sobre estas instituições de acolhimento para jovens provenientes de familias carenciadas (e desequilibradas, digo eu), questão essa já levantada com o famoso Processo Casa Pia. Concordo em pleno com a existência destas instituições, mas parece-me que é cada vez mais evidente que não estão a cumprir o papel para o qual foram criadas. Naturalmente que fornecem uma "ferramenta" útil a esses jovens que na sua maioria foram privados de uma educação decente e, mais importante ainda, privados de uma oportunidade. Mas dar educação não pode ser apenas o despejar de conhecimento ou a aprendizagem de uma ferramenta válida para o futuro. Há que transmitir valores, valores que se ajustem às necessidades dos alunos, e não valores que reflictam a orientação religiosa dos responsáveis. Se em relação a uma escola "normal" diria que os professores não podem ser responsáveis pela transmissão de valores, mas são um pilar importante à sua preservação e estímulo, não posso deixar concordar com essa afirmação em instituições como aquela que alberga os suspeitos do crime. Mais importante que ensinar a rezar o terço deve ser ensinar o respeito pelos outros; mais importante que ir à missa deveria ser a prática de valores como a solidariedade.
Mas isto agora ia dar pano para mangas e o mais importante é realçar que mais uma vez o nosso sistema de ensino, neste caso muito particular, voltou a falhar. E vai ficar tudo na mesma?
A outra questão da semana para mim prende-se com o "nim" do governo em relação às centrais nucleares no país. Dizer apenas que não faz parte dos planos do governo para esta legislatura é o mesmo que eu pegar na minha vida, dividi-la em legislaturas de 4 anos e dizer que comprar uma casa não faz parte dos meus planos para esta legislatura (que termina em meia dúzia de meses). Com esta atitude fica para mim descurado um ponto importante - a discussão do assunto. Se uns podem acenar com os acidentes em centrais nucleares, outros podem fazer campanha aos combustiveis mais baixos. Neste momento confesso que não tenho posição formada devido à falta de informação. Mas queria apenas deixar bem marcado o ponto de que a discussão leva a mais conhecimento, e em Portugal refila-me muito, discute-se pouco e sabe-se quase nada!
E assim me despeço, e peço desculpa pelo atraso na publicação, mas o servidor estava de ferias no Rio de Janeiro com alguma brasileira jeitosa.
Já agora Bom Carnaval!

Virgilio Cadete

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

País de doutores...

Quantas vezes já não houvimos a expressão "Vivemos num país de Doutores"! Ou "são todos Doutores e Engenheiros"!. Na verdade o ridiculo ocorre todos os dias nos mais variados locais do país, desde a tasca da esquina, até à repartição de finanças! Basta aparecer alguém bem vestido e a falar bem, que é logo apelidado de Doutor, mesmo não o sendo, pois se o for, poderá ficar ofendido!

Mete-me imensa confusão ser apelidado de doutor. Volta e meia lá aparece uma cartita a dizer "Doutor Ricardo" e lá me vem a vontade de regurgitar à boca! Mas por que raio é que é preciso colocar a pessoa num pedestal quando se nos dirigem! Há muitas formas de nos dirigirmos a alguém sem precisar rotulá-la! É que ao rotularmos alguém, se o feedback for negativo, fica-se logo em desvantagem, caso se esteja a discutir algo importante! Talvez seja por isso que os obcecados pelos rótulos levam tão a peito quando alguém se esquece de mencionar qual a sua posição na pirâmide!

Enfim, desde que emigrei que este sentimento piorou! Já me cheguei a aborrecer com um colega na recepção de um hotel, porque quando estava a fazer o check-in se vira para a recepcionista e diz com todo o descaramento que é Doutor Ricardo! Aqui não acontece nada disso. De facto, na Suécia, foi proibido por lei, colocar rótulos atrás dos nomes das pessoas. A lei diz que nos devemos dirigir às pessoas de preferência pelo primeiro nome, ou nalguns casos, por Sr. qualquer coisa! Nada de Doutores, Engenheiros, Advogados o que quer que seja. Nas minhas relações profissionais, nos diversos mails que tenho que enviar, por vezes a pessoas que não conheço de lado nenhum, habituei-me a utilizar o primeiro nome da pessoa, dado que na resposta, por norma, se me dirigiam pelo meu primeiro nome!

Não é por ter um rótulo antes do nome que se ganha respeito: é com actos! O invés também se aplica: não é por rotular alguém que se ganha o seu respeito! Infelizmente teremos que o continuar a fazer em Portugal, pois não me parece que a sociedade esteja preparada para esta mudança!

RC

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Catarse

Passo todos os dias naquele sítio.

A partir das 9 da noite começam a aparecer as meninas que, debaixo do viaduto, ganham a vida. “Ganham a vida”?! Adiante.

Todas elas, se apresentam como o produto final, lentamente arrastado, de miséria e pobreza. Olha-se aquelas figuras degradadas e é inevitável que um arrepio de tristeza nos trespasse. Mas não é disto que quero falar.

É que, àquelas mulheres, apesar daquele aspecto horrível, porco e decadente, não faltam clientes. Isso é assustador. Um homem que quer satisfação com uma coitada daquelas, de certeza tem uma mente perturbada. E isso faz-me pensar. Se homens perturbados não tivessem estas oportunidades de catarse imaginem para onde seriam dirigidas todas as suas pulsões. Ou seja, o mais baixo da nossa sociedade (aquelas pobres coitadas) encarregam-se de tornar a nossa sociedade um pouco mais segura.

Hipocrisia? Sim. Mas toda a sociedade precisa de um pouco de hipocrisia para sobreviver.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

*
Panela Pt1143 de 5/10L
Duesseldorf, 23 Fevereiro, 2006

Nota prévia: Escrevo este “post” na sequência de uma discussão sobre o texto que o Ricardo Carvalho escreveu na passada segunda-feira dia 13. Acho que os textos que tem sido escritos são todos independentes uns dos outros mas todos gozam de uma raiz comum. A Portugalidade. Sobre isso resolvi também escrever. Perdoem-me alguma simplificação.

A história de Portugal vai-nos ensinado a olhar os períodos de crise como períodos antecedentes de tempos de revolução, tempo ricos em progressos (não falo de riqueza material apesar de alguns exemplos escritos na história também mostrarem essa faceta). É como um se um ciclo se tratasse: estagnação, crise, revolução, estagnação crise, revolução,...

Vejo a nossa sociedade talvez como... uma panela de pressão. A invenção deste tão útil utensílio remota a 1967 (por Denis Papin) e encontrou a justificação da sua existência na dificuldade que os alpinistas tinham em, a grandes altitudes, cozinhar as suas refeições. Isto deve-se à baixa pressão atmosférica existente e à consequente baixa temperatura a que a água ferve.

Nas panelas mais antigas, quando a água está a ferver, acumula-se pressão lentamente e de repente, dispara soltado a enorme quantidade de vapor e aliviando o ambiente lá dentro. Mas o ciclo recomeça e logo logo volta a acumular novamente pressão para disparar uns minutos mais tarde. E assim repetidamente até a comida estar pronta!
Até nisso a evolução das panelas de pressão dá umas lições à malta e podem perfeitamente servir como um modelo de sociedade: As panelas mais novas (por exemplo este belo modelo TRANSMONTINA), vão continuamente aliviando a pressão nunca deixando que o ambiente se torne insuportável no interior evitando assim que se atinja o ponto de disparo. - Esta libertação gradual da pressão não compromete em nada a funcionalidade e a eficácia das panelas. - As batatas cozem, de facto mais depressa!!!

Claro, haverá sempre para os mais exigentes e que gostam de ter o controlo absoluto de tudo, a versão Autoclave (por que não esta Systec 5070?). Utilizada na esterilização de inúmeras coisas, de tão controlada que é, não liberta pressão gradualmente nem nunca chega a disparar. – “Um verdadeiro exemplo de uma máquina eficáz!” – dizem alguns – Mas... já perguntaram à autoclave quantas vezes já lhe apeteceu disparar ou mesmo rebentar? – Eu diria que é um verdadeiro exemplo de uma contenção forçada pelos barómetros e pelo material que a controla!!!

O bom sinal no meio disso tudo é que só há pressão no interior da(s) panela(s) porque há chama, há agitação. E nos caso em que há disparos é porque o material não é estaque, e porque há comunicação entre o interior e o exterior.
Tal como disse no início vejo a sociedade Portuguesa como uma panela (e felizmente que é das antigas) e então entendo estes ciclos sociais como a prova da existência de uma capacidade interventíva que está guardada dentro de nós e que estranhamente é acumulada para que um dia qualquer venha a disparar (têm é que disparar para todos ao mesmo tempo pois eu sozinho não quero fazer figura ridícula!!). Quando assim acontecer algo irá acontecer. De resto, o colectivo disparo deste pacato povo, já deu provas de ser capaz de impulsionar grandes mudanças.
E tu, em que idade pensas disparar?

Abraços

Rui Neves

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Brokeback Mountain - "Quando até os cowboys são maricas!"



Um dia destes estava ao telefone com um amigo, e a meio da conversa, entre as piadas de ocasião mais diversas, surgiu o seguinte comentário: "Epá, isto agora que até os cowboys são maricas...". A gracola refere-se, obviamente, ao filme que recebeu o maior número de nomeacões (oito!) para os Óscares de Hollywood deste ano: Brokeback Mountain.

"Brokeback Mountain" é, essencialmente, uma história dum amor impossível. O facto de os dois protagonistas serem do mesmo sexo torna-se quase secundário na essência da história, mas é justificativo da impossibilidade da relacão. Qualquer pessoa, independentemente da sua orientacão sexual, revê-se numa das cenas finais (e mais tocantes) do filme, em que Ennis Del Mar visita a casa do seu amante falecido e lamenta o seu destino. O espírito de resignacão face às circunstâncias expressa neste filme é soberbamente captada numa citacão de Ennis Del Mar - "If you can´t fix it, you gotta stand it."

O filme comeca no estado de Wyoming em 1963. Dois jovens cowboys conhecem-se durante um trabalho de verão, em que ambos estão encarregues de guardar um rebanho de ovelhas. Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) são opostos, mas complementares - o que um tem de extrovertido, tem o outro em introversão. Ao fim de um tempo, desenvolve-se uma relacão forte de camaradagem que rapidamente se aprofunda para algo proibido naquele contexto. O filme transporta-nos ao longo de mais de duas décadas e mostra-nos alguns momentos da evolucão desta relacão. A cenografia é de tirar o fôlego, o desempenho dos dois actores é de admirar, especialmente a de Heath Ledger, que desempenha um papel duro e diferente da maioria dos papéis que desempenhou em filmes anteriores - a sua nomeacão para óscar de melhor actor deste ano é merecida. Baseado num conto de Annie Proulx de 1997, vemo-nos confrontados com uma história de pessoas que se sentem inadaptadas em relacão à sociedade que os rodeia. A autora já nos tinha iniciado neste tema quando escreveu o livro que serviu de argumento para "The Shipping News" (2001), de Lasse Hällstrom (realizador sueco que se iniciou com documentários dos ABBA e que é actual como realizador de Casanova) com Kevin Spacey e Julianne Moore. "Brokeback Mountain" é também uma pérola daquele que é talvez o mais ecléctico dos realizadores contemporâneos: Ang Lee. Ang Lee salta elegantemente de um género para o outro com uma graciosidade incomparável. No seu cúrriculo temos filmes tão diversos como "Crunching Tiger, Hidden Dragon" (2000), "Hulk" (2003 - talvez o seu único flop, apesar do desafio técnico conseguido), "The Ice Storm" (1997) e "Sense and Sensibility" (1995). É admirável a sua capacidade de orientar actores oriundos de países e culturas tão diferentes.

A homossexualidade é um tema que já foi muitas vezes abordado no cinema americano. A homossexualidade como algo reprimido e condenado pela sociedade circundante atinge o seu pico no cinema americano em "Boys don´t cry" de 1999, gracas ao qual Hilary Swank ganhou um óscar de melhor actriz. "Brokeback Mountain" não é inovador nesse aspecto. No entanto, "Brokeback Mountain" introduz o tema da homossexualidade numa das arenas tradicionalmente mais machistas da sociedade americana. Um Western é tradicionalmente um palco de virilidade e de celebracão das virtudes masculinas. O Western ofereceu a várias geracões um claro modelo masculino a seguir. Em "Brokeback Mountain", quebra-se a máscara. De certa maneira, "Brokeback Mountain" estica o espírito de camaradagem de "Butch Cassidy and the Sundace Kid" (1969, com Paul Newman e Robert Redford, provavelmente um dos melhores westerns de sempre) a um extremo antes impensável, mas pressagiado. Apetece fazer um paralelo e convidar os leitores a imaginar o que seria se algum forcado português se declarasse abertamente como homossexual. O filme foi proibido nalguns meios mais conservadores norte-americanos, fazendo-me lembrar o choque provocado por "Kinsey" em 2004, que foi levado ao ponto de ser sensurado nos EUA devido à exposicão de "valores não-americanos". No dia de São Valentim, Willie Nelson, a figura de proa da música country, lancou o single "Cowboys Are Frequently, Secretly Fond of Ecah Other", e é a primeira vez que uma música country é especialmente orientada aos homossexuais. Sente-se agora, talvez, uma lufada de mudanca quando os meios mais conservadores nos EUA apresentam as primeiras brechas neste tabu. O mérito de "Brokeback Mountain" como obra de arte centra-se exactamente nesse ponto - independentemente de quantos óscares ganhará este ano, será lembrado no futuro como uma pedra no charco nos meios mais dogmáticos da sociedade americana actual.

Virando-me para a sociedade portuguesa, creio que este filme veio em boa altura. Ainda aqui há poucas semanas atrás foi discutida nos media a hipótese da alteracão da lei portuguesa de forma a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aparte da atitude anacrónica tradicionalista advocada pela ainda omnipresente moral católica cristã que impera na República Portuguesa em inícios do século XXI, não vejo quaisqueres impedimentos lógicos. O casamento homossexual não fere ou ofende ninguém, com a possível excepcão do orgulho e dos preconceitos fossilizados de alguns. Apetece-me citar aquela que é talvez a melhor definicão de lei moral que alguma vez encontrei: "Du skal ikke plage andre, du skal være grei og snill, og forøvrig kan du gjøre hva du vil" [ ="Não incomodes os outros, sê respeitador e amigável, e, aparte disso, podes fazer o que quiseres."] (retirado de um popular livro infantil norueguês "Folk og røvere : Kardemomme by" (1955) de Thorbjørn Egner).

Portem-se bem e até para a semana!
:-)
Viking.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Desemprego - Sonho ou Realidade

Hoje ia sobre o sistema de Saúde privado da Província de Alberta mas como o conhecimento que tenho é claramente influenciado por uma perspectiva pessoal e não foi das melhores experiências, ainda que não o tenha vivido na pele achei por bem procurar inspiração noutro lado.
Na labuta diária de me informar sobre o que acontece no nosso país não pude eixar de notar numa notícia do DN que dava conta de que a taxa de desemprego real em portugal ronda os 10,9%. Ora e o que é que isto nos diz? Naturalmente que 10 em cada 100 portugueses não têm emprego. Mas o que me fez ponderar e demorar o pensamento nesta notícia foram outros factos.
Ora se bem me recordo, pouco antes de sair de Portugal o número de emigrantes de leste rondava os 100 mil (por favor corrijam-me se estiver errado). Com 10% de desempregados em Portugal seria de esperar que também os emigrantes estivessem a diminuir, pois o emprego diminuiu. É claro que todos pensamos o mesmo: "Pois, os patroes preferem os emigrantes que trabalham por salários mais baixos e não fazem discontos!" Certo, mas e isso é culpa do Governo? "O governo devia fiscalizar mais!" e os patrões argumentam: "A culpa é dos impostos que estão altos e temos de poupar nalgum lado. Ainda mais muitos destes trabalhadores de leste são bastante qualificados!" Estão a ver onde quero chegar? O ciclo vicioso da culpa que morre solteira. Sejamos francos: eu não tenho nada contra os emigrantes em Portugal, acho até que é uma excelente oportunidade para nos enriquecermos culturalmente e naturalmente em termos económicos com mão de obra especializada e com diferentes concepções de uma mesma tarefa. Mas será que não existe essa mesma mão de obra especializada em Portugal?
Olhemos agora para as nossas Universidades. Recordo-me de umas Jornadas pedagógicas organizadas pelo Núcleo de Bioquímica (e só foi pena mais gente não ter aparecido) em que um representante da DG da AAC dizia que Portugal era o país da UE com a menor taxa de licenciados. E será que precisamos de mais? Quantos licenciados são obrigados a procurar oportunidades noutros países ou noutros ramos de actividade. Será que Portugal tem mercado para 50 engenheiros do papel por ano? Será que já abriram engenharia da caneta de tinta permanente numa qualquer universidade ou instituto? Tem lógica os Institutos Politécnicos e as as Universidades duplicarem cursos numa mesma cidade e isso acontecer em 7 ou 8 cidades pelo país fora? Não estará na altura, aproveitando as enormes mudanças que o país precisa, para afiar a tesoura pelas universidades e institutos e colocar a educação nos eixos? Não me parece que o problema esteja nas escolas primárias que fecham aos magotes!
E agora tentemos integrar esta informação e adicionar mais alguns factos: porque raio é que os empresários portugueses continuam a preferir ter 20 empregados pouco qualificados e reduzir para 10 para reduzir os custos, enquanto que se contratassem mais um altamente qualificado, certamente aumentariam as receitas?
Muito se falou em produtividade nos últimos anos e em competitividade mas todos se esqueceram que se não houver formação de quem tem o dinheiro para investir pouco se pode fazer. Se Portugal tem elevadas taxas de emigrantes então é porque há emprego! Se Portugal continuam a importar produtos, então é porque existe um mercado para esses produtos e não faz sentido a falência de tantas empresas. Se o número de carros de luxo se mantém com a crise então é porque há dinheiro. Como é que o investimento está a reduzir?
São exercícios de raciocínio ao alcance de todos os portugueses. Não é preciso ser economista, político ou licenciado para ver os factos e juntar dois mais dois! O problema reside no velho ditado que em Portugal, infelizmente se aplica bastante: O pior cego é aquele que não quer ver!
Bem, acho que já coloquei questões suficientes para alimentar a polémica e a mente de cada um por algum tempo. As minhas respostas acho que estão bastante claras. Quais são as vossas?

Abraços da Neve,
Virgilio Cadete

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Tão diferentes, mas tão iguais...

extremo
do Lat. extremu
adj.,
o mais afastado; remoto; longínquo; último, derradeiro; excessivo;máximo; extremado;
s. m.,
o ponto mais distante; extremidade; borda, orla; oposto, contrário; o primeiro e o último termo de uma proporção aritmética ou geométrica; carinho excessivo; exagero, descomedimento; grande dificuldade, apuro, aperto.

(in dicionário online Priberam da Porto Editora)

Extrema-direita/extrema-esquerda, tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais. Resultam de conceitos políticos e de vida em sociedade completamente antagónicos. De um lado, uma extrema direita conservadora, que por norma defende a pureza da raça e que é havessa a qualquer mudança. Do outro lado temos uma extrema esquerda que se acha conhecedora de todos os males do mundo e sabedora de todos os remédios para todos os males do mundo! De um lado temos Hitler, Mussolini, Franco, o nosso Salazar, Pinochet, do outro temos Estaline, Lenine, Castro, Mao entre outros. Mas afinal o que é que estes dois conceitos diferentes têm em comum? Hitler chacinou Judeus em nome de uma raça ariana, cuja definição nunca percebi. Do outro Estaline, que enviava todos os que se lhe opunham para campos de trabalho na Sibéria, que se viriam a revelar como campos de muita morte e pouco trabalho. De um lado, o lápiz azul de Marcelo Caetano, do outro o controlo dos media por parte dos regimes chineses e cubano.

Já se começam a ver algumas semelhanças entre estes dois conceitos! Afinal, ambos são incapazes de lidar com opiniões diferente, e quando lhes faltam argumentos, normalmente partem para a ameaça e violência!

O que me leva a escrever sobre este assunto é única e exclusivamente um único motivo: globalização! Nos últimos anos, tem-se assistido a manifestações anti-globalização um pouco por todo mundo, com um crescente aumento do número de participantes extremistas e, como tal, da violência! O que me surpreende ainda mais é ver, lado a lado, anarquistas e líderes religiosos radicais, comunistas e conservadores, sindicalistas e nacionalistas, etc... É caso para dizer "Todos diferentes, todos iguais"!!!

É de facto curioso como é que dois conceitos tão diferentes se encontram juntos na luta contra o progresso, inovação e igualidade das sociedades mundiais. Não tenhamos dúvidas que o mundo tende para homogeneidade. Onde quer que se vá hoje em dia, encontram-se as mesmas lojas, as mesmas pessoas, a mesma língua (Inglês)! Então porque é que estas pessoas lutam por um mundo que só elas vêm!? Porque não lutar por aquilo que era o conceito inicial do movimento anti-globalização: lutar pela manutenção dos valores culturais das sociedades, sem impedir o fenómeno de globalização! Porquê pergunto eu? São cada vez menos os racionais e cada vez mais os impulsivos nestas manifestações. Aqueles que lutam por causas que deveriam ser as de todos, são cada vez mais substituidos por aqueles que lutam pela causa de grupos minoritários!

Não consigo compreender este movimento, não só pelo modo como tenta mostrar aquilo que defende, mas também por não conseguir compreender como é que pessoas ideologicamente tão diferentes afinal são tão iguais quanto aos meios para atingirem um fim: a imposição da sua maneira de ver o mundo!

Cumprimentos,

RC

ps: Tudo o que escrevi não pode ser visto como universalmente correcto. É apenas uma opinião pessoal

ps2: Tive necessidade de escrever o primeiro post scriptum para tentar colocal alguma água na fervura daqueles mais radicais que já se preparassem para me responder com um chorrilho de ofensas...

domingo, fevereiro 19, 2006

A.A.E.L.E












Cartoon de Luis Afonso, www.ABola.pt


Como hoje a rodada é por minha conta, decidi fazer uma inflexão na temática deste espaço.
Tem-se falado muito de Liberdade de Expressão. Onde começa? Onde acaba? A indignação de algumas pessoas do mundo da comunicação e da cultura na defesa da liberdade de expressão, tem-me irritado de sobremaneira. Se consensualmente a liberdade de um indivíduo acaba quando este entra na esfera de liberdade de outro, por analogia parece-me lógico que a liberdade de expressão deve ser balizada, mais ou menos nos mesmos parâmetros, pelo bom senso.

Não me vou debruçar aqui sobre a extemporaneidade das reacções do mundo Muçulmano às caricaturas publicadas no Jyllands-Posten até porque, todos sabemos que estas só serviram de pretexto para países como Irão, Síria e Líbano, poderem materializar o seu descontentamento em relação a certas deliberações da comunidade internacional ou para desviar a atenção dos seus cidadãos face ao estado vigente da politica nos seus países.

Penso que se tratou de uma incomensurável falta de bom senso e de responsabilidade, para já não dizer de mau gosto, a publicação das tão badaladas caricaturas. Se eu num acto tresloucado proferir afirmações injuriosas em relação à mãezinha de uma qualquer pessoa, o mais certo é ganhar um olho à Belenenses ou então sarna, para me coçar, no tribunal. Mas, então e a liberdade de expressão??? Não tenho o direito de dizer o que penso?
Quem é que estipula as regras? Quem é que estipula os limites do razoável na afronta dos gostos, convicções ou crenças do próximo?

Provavelmente visto que o bom senso, ao que parece, não nos toca a todos de igual modo, ou os termos em que ele está implementado não estão devidamente definidos, o melhor seria instituir a A.A.E.L.E (Alta Autoridade para a Expressão da Liberdade de Expressão) que teria poder para enquadrar os limites jurídicos da liberdade de expressão. Este organismo teria independência orgânica e funcional e não poderia estar submetido ao controlo hierárquico nem à tutela de quaisquer órgãos administrativos ou governamentais. Teria poderes de decisão, fossem eles de fiscalização e/ou de regulação, podendo aplicar normas sancionatórias para com aqueles que transgredissem as deliberações por ele estipuladas.

Não sendo eu um especialista, penso que dentro dos Direitos, Liberdades e Garantias, consagrados na Constituição, o direito à indignação deve estar hierarquicamente ao mesmo nível do da liberdade de expressão, desde que ambos sejam materializados de uma forma respeitosa para com o próximo. No caso das caricaturas de Maomé, pelos vistos ninguém cumpriu a premissa…
Francamente!!!

sábado, fevereiro 18, 2006

Fado II

Confesso que estava para escrever um post sobre os CLAPOURHANDSSAYYEAH!, mas ao ler o post de ontem, apeteceu-me ir buscar uns CD's de Fado. Trouxe um best-off da diva ( Amália), uns de Coimbra e quatros novas esperanças ( Mafalda Arnaut, Kátia Guerreiro, Mariza e Maria Ana Bobone).

Ouvi fados tristes e alegres, tal e qual os vários momentos das nossas vidas. Ouvi-os fados de amor, os fados "políticos", os fados "religiosos", os fados "poetas" com letras de Pessoa, Torga, Ary dos Santos entre outros. Ao ouvir fado, ouvi a história e a vida do nosso país. Não ouvi o rancho de Arganil (com o devido respeito) ou os cantares de uma freguesia. Ouvi Fado!

Acredito que a marca Portugal inclui Fado. Durante uns anos tentou-se "esconder" o género musical e tentar vendê-lo como um símbolo do Estado Novo. Não se conseguiu. A nova geração de fadistas está ai, vende discos e ganha prémios. Talvez a música até seja boa. Talvez até simbolize a nossa maneira de estar na vida e no mundo. Terá que ser o fado "sombrio" e fatalista? Porque não luminoso como a nossa luz atlântica e emotivo como a nossa maneira de ser, assumidamente latina?

Recentemente, ouvi um conhecido maestro português falar entusiamado de um projecto que explorava as semelhanças na origem da música napolitana e do Fado de Coimbra. Em Nápoles, essa terra que Stendhal acreditava ser a cidade mais bela do Mundo, preserva-se a música como eixo fundamental da cultura. Só assim se preserva uma identidade com futuro!

E nós por cá? Continuamos a ter vergonha das nossas raízes?

Podemos até nem gostar de Fado, mas não assumi-lo como 1 estandarte português no Mundo, parece-me um erro estratégico enquanto Nação.

Eu sinto-o português, ao Fado.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

FADO

Quando estamos num país estrangeiro e as pessoas se apercebem por alguma razão (naturalmente porque lhes dissemos!) que somos portugueses, há uma grande probabilidade de o fado aparecer algures na conversa. E um dos mitos que, tendo origem em Portugal, rapidamente se espalhou por todo o mundo é o de que o fado é a alma do nosso povo - uma música nacional. Devo confessar que é um mito que me inquieta e que prontamente desconstruo.
O fado tradicional é cantado nalgumas cidades portuguesas, sendo o de Lisboa o mais popular, mas não é de todo nacional. Trás-os-Montes, Beira-Baixa, Alentejo – todas regiões em que tradicionalmente não se canta o fado.
Os textos derrotistas e fatalistas do fado popular não se encontram nas musicas tradicionais dessas como doutras regiões portuguesas. Dessas regiões retiro valores que são pedras basilares na minha concepção de portugalidade – espírito aberto, tolerância e determinação e que são antagonistas do tipo de sentimento que o fado popular canta.
O Fado não traduz a alma do povo português – é apenas uma ppequena porção da nossa cultura - tal como os coros alentejanos ou o rancho folclórico de Silvares.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

*

É dificil pensar em portugal e não pensar no mundo. Por isso, resolvi partilhar convosco uma carta que escrevo a um amigo de longa data.

Caro amigo Bordalo:
Duesseldorf, 16 Fevereiro, 2006

Espero bem que leias esta carta com atenção e que atentes bem no sentido que estas palavras encerram.
Escrevo-te para te alertar que, sobre algumas das tuas caricaturas, alguns movimentos populares estranhos se levantam. Falo dessa tua criação obscena: o “Zé Povinho” e falo também de movimentos que extravasam as nossas diluídas fronteiras, movimentos muito mais... globais!
Se bem me lembro, eu na altura (1875) ainda te chamei a atenção para o facto de, mais tarde ou mais cedo a malta ir acabar por descobrir o “segundo sentido” de tal criação (que para mim, sempre foi o primeiro, claro). Tu não quiseste ouvir, agora, olha... não sei!



A barba, apesar de ter uma forma diferente, claro que não conseguiria esconder para sempre uma clara alusão à fisionomia do profeta, e claro também que aquele turbante disfarçado de chapéu camponês ocidental só engana quem não quer ver! Reparo também no braço a apontar para... o céu, para... Alá! Que queres tu com isso? “Acordar cães adormecidos”? E porquê o braço esquerdo, por norma o mais fraco? Claro que eu sei, porque te vi esconder a faca na manga do braço direito, por norma o mais forte!! - Mas quanto a esse pormenor, fica descansado pois ainda não disse nada a ninguém e acho que a escondeste bastante bem. Ainda assim, meu caro Bordalo, acho que exageraste!
Os tempos mudam e as pessoas também. O excesso de telenovelas a puxarem para o sentimentalismo tornou as pessoas, já por si bastante sensíveis, ainda mais... sensíveis quanto às suas questões mais pessoais. E a religião Islâmica é uma questão pessoal!!! – de Fé, dizem eles.
Aos olhos de muita gente (não aos meus, claro pois eu sempre fui teu amigo), a tua genialidade fez-te sair fora do limite do aceitável. E de facto, bolas... francamente, não sei mesmo o que te deu na cabeça. Passaste-te mesmo!! E pior foi, que não te limitaste a criar a personagem em desenho!! – Deste-lhe corpo como a uma qualquer estátua de altar, e uma camisa desapertada que mostra os cabelos do peito em tem de desafio aos fieis que inclinam!! Não sei não!!!

O que é que querias!?!

Olha, talvez agora me dês alguma atenção. - Se fosse a ti, emigrava para longe, falava com o teu editor a pedir para deixar de publicar tais agressões e olha... falava com uns tantos outros daquela classe política que sempre criticaste e ofendeste para ver o que é que eles, com um ou dois comunicados podem fazer por ti. Agora o mal já está feito, não há volta a dar mas para a próxima, o que é que achas de um pouco mais de ponderação nos desabafos dessa tua genialidade? Será que se justificam todos os meios com a finalidade de dar nas vistas? Será isto apenas uma reacção exagerada de quem ainda tem muito para aprender sobre tolerância?

Abraços amigos

Rui Neves

P.S. 1 – A malta já organizou mesmo uma reunião para concertarem as formas de luta um pouco por toda a parte para o protesto parecer mais sério. – Vão ver se conseguem convencer as grandes massas a aderir também!
P.S. 2 - Nem penses em fugir cá para casa pois eles sabem que sou teu amigo e já tenho um carro negro à porta com um tipo de turbante a fotografar as pessoas que entram cá.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Ja, vi elsker dette landet!

'Ja, vi elsker dette landet' é o título e refrão do hino nacional norueguês, escrito por Bjørnstjerne Bjørnson em 1870 (prémio Nobel da Literatura, em 1903), numa altura em que a Noruega não era independente. A frase traduz-se como 'Sim, nós amamos esta terra', e achei que era o título perfeito para discutir um tema que tem-se demonstrado como assumidamente actual na última década: nacionalismo, patriotismo e a definicão de identidade nacional. Este assunto tem sido debatido de uma forma indirecta por todos os contribuintes deste blog nos ultimos posts.

O filósofo e escritor espanhol George Satayana escreveu um dia: "To me, it seems a dreadful indignity to have a soul controlled by geography". Pessoalmente, parece-me pouco democrático e injusto que o local de nascimento venha a ter um papel determinante na liberdade de opcões que um indivíduo gozará no resto da sua vida. No entanto, por aquilo que tenho visto e vivido nos ultimos anos, apercebi-me que esta é uma realidade universal no mundo actual. Com o meu passaporte ocidental e dum país que, felizmente, não se encontra em conflito com nenhuma outra nacão deste planeta, posso virtualmente deslocar-me para onde quiser, quando me apetecer. No entanto, se por forca do acaso tivesse a infelicidade de nascer no Afeganistão, por exemplo, passaria o resto da minha vida a ser interrogado e revistado em todos os aeroportos que me decidisse a viajar. E a minha liberdade de decidir em que país desejaria estudar ou trabalhar estaria severamente limitada, violando assim um princípio que considero como extremamente precioso: a igualdade de oportunidades. Queiramos ou não, o mundo actual pode-se descrever numa simples frase: existem os brancos e os outros. Com 'brancos' refiro-me a ocidentais, independentemente da sua etnicidade (e às vezes, nem esse princípio é respeitado).

Confesso que o conceito de nacionalidade é um conceito que me desagrada. Talvez por motivos pessoais. Ambos os meus pais nasceram e cresceram em Mocambique, numa altura em que Salazar obstinadamente defendia a ideia de um império português. O meu pai combateu "por Portugal" durante a guerra colonial. Depois da revolucão de 1974, Portugal livrou-se (afirmacão polémica, mas talvez a mais correcta para descrever o processo!) das colónias, e como consequência, 1 milhão de "portugueses" foram forcados a migrar de volta ao continente europeu. A vontade dos meus pais era a de terem permanecido em Mocambique. A minha mãe nunca antes tinha metido os pés em Portugal. Quão portuguesa era a minha mãe em 1975?
Parece-me a mim que uma pequena caderneta de papel com uma dúzia de folhas passíveis de serem carimbadas pelo meio tem demasiado poder sobre a vida de muita gente neste planeta. Há quem lhe chame passaporte.

Com isto pretendo afirmar que, na maior parte dos casos, a escolha de nacionalidade é tudo menos voluntária. É o que nos calhou pelo destino. Daí ser um adepto do pluriculturalismo e da liberdade de movimentacão. Pela liberdade de escolha. Existe o país em que nascemos, e aquele em que escolhemos viver. Na maior parte dos casos, estes dois são coincidentes. Azar daquelas pessoas em que não o são.

Eu gosto de Portugal. Eu gosto de comer bacalhau na noite de ceia de Natal, de passear na praia durante o verão, assistir a serenatas nas noites coimbrãs, de torcer pelo Figo e companhia no Europeu e no Mundial. Mas eu também gosto da Escandinávia. Gosto de esquiar durante o Inverno, de assistir às auroras boreais, de discutir política sueca com os locais e por aí adiante. Costumo classificar as pessoas que vivem em países estrangeiros, ou melhor, países que não são aqueles que os viram nascer, em dois grupos: os 'emigrantes' e os 'imigrantes'. Esta distincão baseia-se na atitude individual de cada um. O 'emigrante' é aquele que vive num país estrangeiro, mas que se mantém a par dos desenvolvimentos do seu país de origem, que lê jornais e ouve a rádio do país de origem com regularidade, exibe preferência por falar com os seus compatriotas e cujo objectivo último é um dia retornar ao seu país. A sua ligacão com o país de origem é estreita e activa, o seu sentido de identidade nacional é reforcado pela experiência de emigrante. No caso dos 'imigrantes', estes adoptam a língua do país que os recebeu como língua de uso corrente, lêem publicacões do país em que estão, seguem a televisão, identificam-se com a cultura local como sendo a sua. Por vezes assimilam-se na sociedade local por lacos de sangue. Entre estes dois grupos, vejo-me mais como sendo parte do segundo. E como tal, corro frequentemente o risco de ser visto pelos meus compatriotas como arrogante, ingrato ou mesmo como traidor.

Eu não considero os filhos de emigrantes portugueses como portugueses desenraizados que, desgracadinhos, nem sequer têm a oportunidade de aprender português como deve ser! Vejo-os mais como priveligiados, por terem a oportunidade de beber da fonte de duas culturas, de poder escolher entre o melhor que há entre dois mundos. De poder escolher! E se calhar ter o luxo de poder ser verdadeiramente imparcial.

Nos dias que correm, especialmente desde a afirmacão crescente da União Europeia como uma realidade política, considero que é altura para repensar o conceito de nacionalidade. "Patriotism is your conviction that this country is superior to all other countries because you were born in it", escreveu George Bernard Shaw. Não acho que a Noruega (ou melhor, a Escandinávia) é o melhor país do mundo, e que em Portugal tudo está mal, e que lá "no Norte" é que é tudo bom. Não há países perfeitos. A Escandinávia tem problemas. Portugal tem problemas. E ambos têm muita coisa boa também. No entanto, é natural que uma pessoa com gosto pelos desafios, vida ao ar livre e de viajar e que preze a igualdade de oportunidades como princípio fundamental numa sociedade, se identifique mais com a cultura escandinava do que com a sul-europeia em geral. Isto e as louras, claro está! ;-)

Se calhar existem lacos de identidade mais fortes entre pessoas, que os lacos de identificacão nacional: identificacão religiosa, ideológica ou profissional, por exemplo. Estas podem, por vezes, sobrepôr-se aos lacos de identificacão nacional. Creio que as diferencas de pensamento entre um português transmontano e um iraniano de Teerão nunca justificarão que um dia se lancem ás gargantas um do outro. Ou de um americano de Wyoming e um iraquiano de Bagdad (ops, lá estou eu a ser impertinente outra vez...). Mas isso é tema para um outro post...

Independentemente disto, não há melhor seleccão de futebol na europa que a portuguesa, carago!!! :-)

Até para a semana e um abraco ao meu pai, que faz anos hoje!!!
;-)
Viking!

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Lost in translation - o outro lado do espelho

Antes de mais tenho de dar a todos os parabéns pelas palavras geradas nestes primeiros posts desta primeira semana. O começo é promissor!
Repito o título para dar a conhecer o reverso da medalha.
Se por um lado traduzir de português para inglês pode ser uma tarefa ingrata, só agora me apercebi de como o contrário pode ser ainda mais difícil.
Eu sempre fui um dos críticos daquele pessoal que emigra e que quando volta a Portugal mistura as duas linguagens naquilo que parece ser uma tentativa de afirmação perante os que se mantêm no nosso Portugal. E todos nós já usámos palavras como "avecs", para os emigrantes em países francófonos, ou "camones" para os que levaram alguma cultura para o norte da America (esta tinha de ser...).
Em quase 7 meses pelo Canadá sem regressar à terra-mãe, dou-me por feliz por ter tido a maior parte do tempo a companhia de uma colega das tertúlias coimbrãs, mas não posso esquecer a comunidade portuguesa em Edmonton, que descobri quase por acaso, e em particular a família que me acolheu quase em jeito de adopção.
Dois são os dias da semana em que o português é a lingua que mais falo, mas fora isso as poucas palavras vão para os pais e alguns amigos, e o inglês passou a ser a minha língua, para falar, escrever e pensar. Graças aos minutos diários a actualizar-me sobre o que se passa no desporto (Abola), o país (Público) e Coimbra (Diário de Coimbra) consigo manter um nivel de escrita em português aceitável.
Mas voltemos à comunidade portuguesa de Edmonton. Na última vez que contaram, existiam cerca de 15 000 (sim, quinze mil) portugueses e descendentes de portugueses nesta cidade com pouco mais de 1 milhão de habitantes. A forma como os descobri dará uma bela crónica um dia destes.
Naturalmente que, por muito aventureiro que seja, tentei aproximar-me dessa comunidade da qual fazem parte uma Igreja e um Centro Português construido por portugueses e com donativos dessas mesmas pessoas.
No princípio frases como: "No Inverno o snow chega a quase 6 feets"; " O train é muito bom!", "Tens de comprar um cell" fizeram-me muita impressão, e muitas vezes pensei: "Mas estes gajos não sabem que snow é neve, train é comboio (ou metro neste caso) e cell é telemóvel?".
Não foi preciso muito para perceber que a resposta é: "Não, não sabem!" Conheci um senhor açoreano, da ilha do Faial que veio para aqui há mais de 25 anos e nunca mais voltou a Portugal. Como pode ele saber que é um telemóvel ou um comboio? E apesar de existir uma escola portuguesa, os filhos e netos aprendem inglês como língua mãe e chegare a casa e ouvirem os pais a falar português faz com que a linguagem com que comunicam é uma linguagem híbrida entre o português e o inglês, com vantagem para o inglês.
Mesmo para mim que acabei de "sair do barco" começa a tornar-se complicado nalgumas situações traduzir os meus pensamentos para português.
Ganhei uma nova perspectiva sobre a hibridização de linguagens que acontece com todos os emigrantes portugueses e finalmente compreendo: existem palavras que apenas aprenderam na língua do país de acolhimento e não tinham ninguém por perto que lhes dissesse a correspondente palavra em português.
Naturalmente que a comparação entre os países (a pátria e a outra pátria) surge naturalmente. Da mesma forma que comparo o Canadá a Portugal, certamente que quando regressar a Portugal farei o inverso, e frases como "Lá é que é bom" não são ditas com superioridade (mas muitas vezes são) mas como constatação de um facto. Só para terem uma ideia das diferenças: um empregado da construção civil aqui, trabalhando 4 dias por semana, 8-10 horas por semana, sem ganhar a dobrar em fins de semana ou feriados, tira cerca de 4 000 (sim, quatro mil) dólares por mês. Se considerarmos que o custo de vida comparado com Portugal não é assim tão diferente...
Mas aquilo que mais me toca e com que vou encerrar este texto que já vai longo, é que todos vieram em busca do paraíso, em busca de uma vida melhor para eles e para os filhos, mas o destino final é sempre, mais tarde ou mais cedo o país de origem. E se por um lado dizem que aqui é melhor que em Portugal, também dizem:
"Não há nada como o nosso Portugal!"

Orgulhosamente Português,
Virgílio Cadete

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Confiança...

Antes de mais queria dar os parabéns aos autores dos textos que me antecederam. É sem dúvida um início auspicioso para este espaço, onde espero que haja muitas trocas de ideias e de opiniões, ao bom estilo das conversas de café, que infelizmente não podemos manter.

Estes textos também me deixam confiança. Afinal, aquela que foi apelidada por muitos como a geração rasca, é uma geração ambiciosa e que não busca apenas o conforto pessoal, mas fala de forma a procurar motivar outros para uma mudança.

Mas de que mudanças falo? Acima de tudo é preciso mudar mentalidades! Ainda esta semana foi publicado um estudo onde se demonstrou que o povo português era o mais pessimistas do mundo! Mas porque é que somos assim!? Não é de agora este pessimismo, este deixar andar, há séculos que dura! E tal forma de estar reflecte-se no país. Encontramos um povo apático, acomodado ao seu emprego, mesmo que não goste dele, um povo que não olha para o futuro, que não faz planos!

Mas acho que tal está a mudar! Parece-me que esta crise económica fez acordar muita gente. As pessoas começam a compreender que não lhes vale de nada andar a pedir dinheiro ao estado e a culpar o estado de todos os males que as afligem! O que é preciso é iniciativas privadas, não ter medo de arriscar, empreendedorismo (expressão tão na moda). Qualquer boa ideia de negócio, acolhe financiamento de um banco. Os bancos estão cada vez mais receptivos a investimentos ditos de risco, pois o retorno que podem obter é muito superior ao que obtêm com os empréstimos e investimentos das pessoas! Os apoios estatais e comunitários à criação de novas empresas nunca foram tantos. Mas então porque é que as pessoas não se chegam à frente? Porque é que não criam o seu próprio negócio!? Primeiro porque é muito mais atractivo tentar arranjar um emprego na função pública, por todos os benefícios inerentes a isto. O problema é que poderá passar o resto da vida a fazer algo que não se gosta, apenas pela comodidade do emprego! E depois por medo!

Há medo de arriscar, medo que algo corra mal! O problema é que sem arriscar nada se consegue! Temos exemplos de imensas histórias de sucesso de nossos compatriotas, no entanto, muitas vezes em vez de tentarmos imitar o seu sucesso, tentamos denegri-lo. Sim, também somos um povo invejoso! Desde os mais altos cargos políticos, até ao empregado de construção civil, a inveja está presente. É difícil engolir que outro possa ser melhor que nós na mesma função e por isso ser promovido ou recompensado! É a forma de estar de um povo! No dia em que todos tomarmos consciência destes nossos defeitos, talvez possamos ressurgir das cinzas. Até lá, uns vão ter que continuar a remar contra a corrente, esperando que o sentido desta se inverta!

Gostaria que este espaço conseguisse transmitir uma mensagem a quem nos visitar. E essa mensagem seria, estejamos onde estivermos, em Portugal ou no estrangeiro, na Escandinávia ou no Canadá, o nosso país tem um futuro e qualquer um de nós pode ajudar a construi-lo das mais variadíssimas formas! A começar por acabar com a típica expressão do lá fora é que é bom, porque quase todos os membros deste blog sabem bem que afinal lá (cá) fora também há muitos defeitos! Por isso, mão à obra.

Eu tenho confiança que melhores dias virão e que posso ajudar a mudar algo. E tu, tens?

Cumprimentos,

RC

domingo, fevereiro 12, 2006

Ir para fora…cá dentro!


Aos amigos do “continente”…

Artur da Cunha Oliveira disse, no decorrer de uma intervenção sobre Instituições Autonómicas Regionais que, “desde os primórdios da emigração os Açores são apenas um ponto de transição, um ponto de passagem e não um ponto a atingir." e que "Assim, os açorianos são, no seu mais profundo inconsciente colectivo, homens e mulheres do continente e não insulares.”
Efectivamente os Açorianos têm sido, ao longo da história, um povo de e da diáspora. De facto, o português falado nos Açores, é fruto do cruzamento do português trazido, sobretudo, do Algarve, do Alentejo e de estrangeiros (França), donde resulta a variedade dos sotaques que se ouve nos Açores. Numa dessas variantes, por exemplo, não se pronunciam os ditongos. Noutra o som francês "ü" levado para os Açores pelos gauleses persiste ainda hoje. Por outro lado, desde o séc XIX até ao último quartel do século passado, os açorianos experimentaram um contingente emigracional significativo, primeiro para o Brasil mas principalmente para os EUA e Canadá, estimando-se a população emigrada actualmente em um milhão de Açorianos entre primeira, segunda e terceira gerações, o que representa sensivelmente, o quádruplo dos habitantes das Ilhas. Daí muitas vezes se designar o "Novo Mundo" como a "décima Ilha".
Esta tendência cessou e hoje, quem emigra dos açores, fá-lo acima de tudo por ambição profissional, mais do que por procurar um melhor nível de vida. Pelo contrário, os Açores têm vindo a tornar-se um pequeno pólo de imigração quer por Portugueses do continente que para lá vão trabalhar, quer por estrangeiros, do norte da Europa principalmente, que escolhem as “ilhas de bruma” para gastar a sua desproporcional pensão de reforma, principalmente nos meses de Inverno.
Há ainda um outro fenómeno, tema central neste texto, do qual os Açores começam a retirar incomensuráveis benefícios. Falo da vinda de muitos Açorianos para estudar no continente. Antes do 25 de Abril só os mais abastados podiam suportar os estudos de um filho seu além fronteiras mas actualmente, com as facilidades existentes, nos transportes principalmente, houve uma massificação desse fenómeno.
Esta circunstância é pois importantíssima não apenas ao nível da formação superior, até porque esta já é facultada na região, nas mais diversas áreas, mas principalmente ao nível cultural, da abertura das mentalidades. Ainda sou do tempo em que o único canal de televisão que existia nos Açores era a RTP-A, que começava a transmitir, pasme-se, às 16h, e os jornais do dia só chegavam ao meio-dia. Nessa altura era “chique” vir ao continente e para qualquer parte do país que se fosse, ia-se para “Lisboa”, resquícios de uma cultura ainda colonialista. Hoje tudo é diferente, a disseminação dos meios de informação veio atenuar os condicionalismos inerentes à condição ultra periférica da região e não é por acaso que os Açores estão ao nível dos países mais desenvolvidos da Europa no que à utilização de Internet diz respeito.
Falava do fenómeno da massificação dos estudantes no continente (bem como no estrangeiro). A sua importância é inegável a dois níveis. Pelo tipo de vivências que se tem, pela diversidade de pessoas que se conhece e pela possibilidade de beber os mais diversos tipos de conhecimento, mas também pelo ganho de independência que sair de casa dos pais aos 18 anos acarreta, à imagem do que acontece nos países do Norte da Europa.
Estarei a ser demasiado ambiciosos ao referir-me a uma “cultura Açoriana” contudo, por hipótese simplificadora de ideias vou cometer essa ousadia. Não há culturas estáticas, imutáveis, permanentes ou fechadas em si mesmas. A abstracção que chamamos de cultura não é fácil de delimitar. Se tomarmos uma das definições possíveis para cultura como "saberes e conhecimento transmitidos ao conjunto dos membros de uma sociedade, através de um processo de aprendizagem." (François Laplantine), penso que podemos perceber claramente a ideia que pretendo transmitir.
E o que é fantástico é que, mais uma vez no campo da simplificação, não podemos falar de um fenómeno de aculturação ou algo do género. Pelo contrário os Açores, apesar de tudo, têm conseguido manter muitas das tradições e dos valores pelos quais se regia antigamente, o que vai rareando por esse mundo fora.
Vir estudar “cá para fora” abre portanto os horizontes que são no nosso caso culturalmente, historicamente e realmente amplos, no mínimo situam-se mais ou menos na linha que separa os azuis do céu e do mar. Esse facto aliado à realidade de durante muitos anos termos estado isolados, votados a nós mesmos, ajuda a dar mais valor à nossa terra, a querer voltar... pelo que, meu caro Artur Oliveira , as suas palavras, já tendo feito sentido algures na historia, hoje na minha humilde opinião, são desprovidas de qualquer significado.
Se há algo que muitos dos Portugueses do continente (não todos) podiam ter como exemplo, o que não raras vezes, por qualquer rasgo de ignorância é interpretado como uma ansia independentista, é o orgulho, o sentimento de pertença que as pessoas das ilhas têm pela sua própria região.
Finalizando, que isto já vai longo, reporto-me ainda ao benefício que a interacção calhau / rocha-mãe acarreta para a minha região, tema central deste texto. É que é essa, acima de todas as outras, tirando o facto de metade do meu sangue ser continental, a dívida de gratidão que eu, a um nível mais particular, tenho para com o continente, para com Coimbra, para com todos vós… Tenho dito!

sábado, fevereiro 11, 2006

Portugalite

Portugalite. O termo entrou no meu imaginário graças a crónica do MEC nos anos 90 e foi brilhante avivado devido a um texto de Susana Nunes (emigrante em Paris) na última revista Atlântico.

Basicamente, a Portugalite é uma doença curável, mas longe de estar extinta. Consequência de um choque cultural de grau 5, consiste em renegar, ainda que muitas vezes de forma inconsciente, o país que nos viu nascer. Quando um grupo de emigrantes portugueses fala entre si não a língua de Camões, mas a língua do país de acolhimento estamos perante um sintoma claro de Portugalite. Ou quando num diálogo de 15 segundos dizem 10 mil vezes "Ah bon, lá na France é que é!" batemos no fundo da doença.

Nestas tristes circunstâncias, apetece a qualquer pessoa mandar toda e qualquer tolerência ocidental possível às urtigas e exigir o BI e passaporte de volta! A falta de identidade enquanto povo é o primeiro passo para a descrença no crescimento económico e no desenvolvimento social de um país.Num mundo cada vez mais global, só uma postura furiosamente portuguesa e abertamente universal nos pode salvar.

Felizmente, há muitos portugueses com essa postura todos os dias e em muitos pontos do Globo.Pertencem, como eu, à geração que cresceu com idas a restaurantes chineses, onde os sofridos emigrantes em solo luso ( Madeira não incluído!) educavam os filhos entre uns Chop-Suey(s) e umas galinhas com cogumelos sem pudor de falar em chinês à nossa frente.

Actualmente não vivo no estrangeiro, mas Deus deu-me a lucidez de ver quando vivi que, apesar de imensos defeitos, Portugal ainda é um país possível. Precisa é de todos nós onde quer que estejemos!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Portugais

Não é esse o Portugal que sinto meu, de onde venho, que me fez e onde me fiz.

O Portugal derrotista, sem ganas e sem risco – essa não é a gente que chamo minha.

Sim é um conceito que não me escapa, que eu vejo na rua e na televisão mas não é o meu Portugal. Por que os exemplos que me rodeiam e por isso me balizaram são de paixão, ganas, trabalho e risco. Para explicar o que quero dizer vamos até à Beira-Baixa do início dos anos 70. Como o resto do imenso Portugal rural do seu tempo está repleta de gente pouco instruída e pobre. Encontrávamos então (e como em qualquer tempo ao longo dos tempos), pessoas de todo o tipo – conformadas e desafiantes, derrotadas e lutadoras. Quem quis mudar o seu mundo partiu e lutou. A minha gente partiu e mudou – e Portugal mudou com ela. O estado fez a sua parte e a minha gente a sua. O estado proporcionou educação gratuita e a minha gente trabalhou e educou-se. E numa geração 100 anos passaram.

Hoje tenho direito a estudar em escolas públicas, gratuitas e de qualidade, não preciso de deixar de estudar porque as oportunidades que o estado deu e a minha gente não desperdiçou permitem à minha gente investir em mim.

Estive em Estocolmo no Instituto Karolinska, considerado pelo suplemento de educação superior do jornal “The Times” como a quarta melhor instituição de ensino na área Biomédica do Mundo (atrás de Harvard, Oxford e Cambridge) e encontrei todo o tipo de pessoas – umas brilhantes e outras banais – como em Portugal e como em qualquer lugar do mundo em qualquer tempo ao longo dos tempos. A educação que Portugal me deu que levei para a Suécia não me colocou em desvantagem, muito pelo contrário – era uma educação de qualidade e tinha sido à borla – um grande negócio!

Cabe ao país dar as oportunidades e cabe às pessoas aproveitá-las com trabalho e com risco. Se não existirem oportunidades cabe às pessoas mudarem o país de modo a que este as possa criar. Mas oportunidade não é sinónimo de rabinho lavado com água-de-colónia. Vejamos o que se passa à nossa volta. Os apoios para a criação de empresas, para a criação do próprio emprego, para a remodelação das empresas já existentes, sejam elas de serviços, pescas ou agricultura e para o investimento em novas tecnologias e inovação é imenso. Mas as pessoas têm medo de arriscar a criar o seu próprio emprego e esperam ansiosamente em casa por um lugar estável, de preferência no estado. A nível da cúpula económica, o medo do risco mantém-se. Vemos o negócio da banca a prosperar. Sim é bom para a economia ter uma banca estável e credível mas quando esse é o único sector que enquanto um todo prospera são sinais de alarme. São sinais de alarme porque significa que as pessoas que têm dinheiro para investir o fazem num sector com baixo risco como é o das aplicações/especulação financeira e este é um negócio que quando absorve uma quantidade tão grande de recursos, traz muito pouco para a economia, pois não cria muito de novo.

As oportunidades existem, o país permite. Precisamos de ganas, de aproveitar as oportunidades e de perder o medo de arriscar. Ponho os meus olhos no meu Portugal, na minha gente, isto é, nessa imensa multidão que tiveram ganas de mudar e venceram a inércia.

E o Portugal de hoje é diferente do Portugal de então.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

*

Percorrer a cidade
Duesseldorf, 9 Fevereiro, 2006

Boas

Este blog, na minha opinião é de facto um espaço simpático para se beberem uns copos. Já lá vai o tempo das soalheiras tardes passadas na esplanada a falar de tudo e mais alguma coisa ao ritmo fluente das ideias. Infelizmente, a distância a que nos encontramos fez-nos trocar esses aprazíveis momentos por umas horas ao computador a escrever os nossos textos para que os outros possam ver, e a ler as ideias dos outros. Muda-se a forma mas a necessidade de comunicarmos aliada ao interesse pelo que os outros pensam, perdura. E ainda bem.

No meu caso, a SuperBock também foi trocada por uma infindável variedade de cervejas que aqui facilmente encontramos. É um pouco sobre isso que gostaria de falar.
Só nesta pequena cidade há 6 cervejeiras produzindo 6 diferentes marcas de um mesmo tipo de cerveja característico da cidade: a Alt (velha em Português). Todas elas devem ter uma fábrica algures na região e têm um restaurante/cervejaria na parte velha da cidade. São enormes e normalmente estão cheios de gente que a qualquer hora do dia procura uma pausa num copo de cerveja. Por estarem cheios, as pessoas começam-se a acumular no exterior onde existem umas mesas altas sem bancos onde copos vazios vão desordenadamente fazendo uma fila esperando por reabastecimento. É um acumular independente do tempo que está! Se está tempo quente, tudo bem e bebe-se cerveja para refrescar. Se chove, abre-se o toldo e bebe-se cerveja. Se faz frio, não interessa e bebe-se na mesma. Se faz muito frio, ligam-se os aquecedores de exterior e aquece-se o corpo com mais uma cervejinha. Certo é que aquelas mesas invariavelmente estão com gente. Ao Domingo então... passam horas e horas seguidas de pé apenas a beberem e a conversarem. – Mas, é um beber ordenado e cuidado. Não é fácil encontrar gente bêbeda. É muito fácil encontrar gente com sede de conversa e de convívio.

Claro está que não posso falar da história desta cidade e de como estas cervejeiras sobreviveram aos tempos (e quantas outras não conseguiram) mas, numa comparação rápida vejo-me a percorrer a cidade de Coimbra e a procurar os velhos cafés, pontos de encontro e local de convívio de muitas gerações anteriores às nossas. Poucos resistiram à pressão dos tempos. Até quando é que irão esses poucos resistir? Serão espaços virtuais, como este blog, o futuro das tertúlias? Será que beber sozinho em frente ao computador tem assim tanta piada?

Abraços e um brinde a todos que hoje pago eu

Rui Neves

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Lost in translation 2


Trondheim, Noruega

O meu nome á Paulo e nasci em Portugal à 27 anos atrás. A primeira vez que sai do meu país de origem foi à cinco anos atrás, quando decidi fazer a minha tese final de licenciatura em Copenhaga. Por motivos práticos, achei que era altura de comecar a raptar as revistas semanais da "Time" que a minha irmã assina e esforcei-me por ignorar as legendas nos filmes em inglês que eu assiduamente ia assistindo nos cinemas locais. O Inglês iria ser a minha língua de ponte. Comprei também atravès da internet um "Teach Yourself Danish", com registo sonoro para ir acompanhando os textos. Mal sabia no que é que me ia meter! Por grande azar, o dinamarquês é dos idiomas fonéticos mais dificeís entre as líguas indo-europeias. O dinamarquês tem 9 vocais gráficas (a,e,i,o,u,y,æ,ø,å), e estas podem ser expressas em 13 formas fonéticas distintas! Em comparacão, o português tem apenas cinco formas escritas, e umas 9 ou 10 formas fonéticas. O espanhol é canja: 6 escritas e número igual de fonéticas, razão pela qual é tão fácil para um estrangeiro aprender. Ainda pior, o dinamarquês é quase a única língua germânica (ou europeia) com 'glottal stop', ou 'stød', como os dinamarqueses lhe chamam. Traduzido para leigos, isto significa que muitas palavras não são pronunciadas até ao fim. Algumas sílabas perdem-se no dinamarquês currente. Um dos exemplos mais dramáticos é a palavra "selvfølgelig" (=naturalmente, certamente). A palavra, na sua forma escrita, parece impronunciável e intragável. Mas depois de digerida, sobra apenas, na forma oral, algo como "sefóli".
Como podem imaginar, sofri um pronunciado choque linguístico mal meti os meus pés em Kastrup (aeroporto internacional de Copenhaga). Já conseguia ler os sinais e um par de linhas nos jornais locais, mas no que toca a tentar perceber o que os indígenas iam ladrando à minha volta, ai não havia nada a fazer.
Felizmente, esta história teve um final feliz. Depois de 5 meses de cursos de dinamarquês, lá comecei a perceber o suficiente para poder agradecer um café ou comentar o clima com as empregadas dos restaurantes no centro de Copenhaga. Ou ler a banda desenhada nas ultimas páginas do "Ekstra Bladet", o maior tablóide dinamarquês. Em termos da minha experiência dinamarquesa, o único claro vencedor linguístico foi o inglês. Por falta de contacto com portugueses, o inglês tornou-se a unica lingua que utilizei durante largos meses. É incrível quão rápido uma pessoa aprende uma língua quando esta é a única forma de expressão.
Felizmente, o norueguês é quase idêntico ao dinamarquês na sua forma escrita. Este facto tem razões históricas que eu não irei aprofundar nesta crónica - é uma longa história, fica para outra altura. Utilizando os meus parcos conhecimentos de dinamarquês como ponto de partida, foi fácil e rápido aprender a forma mais utilizada de norueguês (existem 2 idiomas escritos - bokmål e nynorsk - sendo o primeiro o mais currente).
A minha história de como é que aprendi o norueguês é uma longa saga por si só, mas hoje posso dizer que o norueguês é a língua que utilizo mais frequentemente no meu dia-a-dia.

Pegando no tema lancado pelo Virgílio, acho que o maior factor de integracão numa cultura diferente processa-se através da aprendizagem da língua local. Existem muitos termos intraduzíveis, ou conceitos que estão entranhados e imiscuídos na forma de comunicar. Não acredito muito na ideia de que certas palavras particulares são intraduzíveis - fado é 'skjebne' em norueguês, saudade é 'lengsel' - mas acredito de que a forma como estas palavras se utilizam em relacão umas com as outras é terrivelmente diferente de língua para língua, e é altamente contextual. Pegando num exemplo infelizmente actual, a rainha da dinamarca, Margrete II, tornou-se alvo da ira dos grupos extremistas islâmicos gracas a um erro de traducão. Margrete utilizou a palavra 'modstykke' como adjectivo para classificar o papel do islamismo na sociedade dinamarquesa em relacão à maioria cristã. 'Modstykke' significa, no contexto em que a rainha utilizou, "complemento", mas a imprensa britânica utilizou a outra interpretacão, "opposition" (oposicão), na transcricão do discurso da rainha. A partir daí comecaram os problemas.
Compreende-se então o esforco que os governos nórdicos têm empreendido em tornar a aprendizagem da língua nacional obrigatória aos imigrantes. Neste momento, é impossível tornar-se cidadão dinamarquês se se falhar um teste da língua, e medidas semelhantes comecam a ser tomadas na Noruega e na Suécia.
Outra curiosidade linguística referida na crónica doVirgílio é a palavra referente a 'namorado' ou 'namorada'. Em sueco existe a palavra 'pojkvän' ou 'flickvän'', que se conjugam na mesma forma que no inglês. No alemão e no holandês é ainda mais confuso: a mesma palavra é utilizada para descrever 'amigo' e 'namorado', tornando a interpretacão altamente contextual ('vriend' no holandês, 'Freund' em alemão). Mas no norueguês torna-se cómico, já que a palavra 'kjæreste' não distingue o masculino do feminino. E dada a liberdade de inclinacões sexuais por aqui vigentes, já me aconteceu cometer alguns erros embaracosos...
Já agora, só para terminar, vocês sabiam que a palavra 'amor' não existia no vocabulário finlandês até ao início do século XX? Foi exactamente por causa das traducões que a palavra comecou a existir: afinal de contas, esta palavra aparecia tão frequentemente na literatura estrangeira...

Bem, portem-se e até para a semana!
:-)
O Viking!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Lost in translation

Local: Edmonton, Alberta, Canadá
Hora: 1:00 am local, 8:00 Pt
Temperatura: -12ºC (feels like -19)
Os ditos populares têm sempre o seu "quê" de razão. Quem nunca ouviu que só damos valor às coisas quando as perdemos? Pois por estranho que pareça, parece que para mim foi preciso atravessar o Atlântico para dar valor a coisas tão insignificantes que só existem no nosso pequenino Portugal, que de repente parece enorme!
Podia dissertar sobre tanta coisa sobre estes ultimos quase 7 meses, mas as palavras para este post surgiram exactamente por causa do título.
O inglês é uma das línguas mais usadas pelo mundo fora, e no mundo da ciência é a lingua raínha. Mas assim que saímos do laboratório, e tal qual como qualquer português em Portugal, há que fazer amigos e beber umas cervejas cá da terra (mas também se encontram umas super-bock fresquinhas no Centro Português). E aí é que a porca torce o rabo. Não querem lá ver como o inglês pode ser tão promíscuo? E dizem que o português é traiçoeiro.
Podemos ir para coisas difíceis como Fado. É claro que pode ser sempre "fate" mas isso não é a mesma coisa, fado é fado e é só nosso!
Mas voltando à parte dos copos. É claro que em Portugal chegamos a um sitio novo e bebemos uns copos com uns colegas do trabalho, uns conhecidos daqui ou dali, porque a palavra amigo tras inerente o conceito de amizade. Mas por aqui nada disso, ele é "fuck friends", ele é raparigas a falarem de "girlfriends" (não, são apenas amigas - girls that are friends!), ele é budy para aqui, budy para ali. E depois ainda têm a lata de me perguntar como era Portugal. "Agora é que me tramei. Como raio é que eu vou traduzir essa porra??" E para que o que digo faça sentido com o que penso tenho de explicar que um "friend" que não é "best friend" mas também não é um "collegue" e que esse "friend" é um rapaz, eu e ele faziamos isto ou aquilo. E como os copos de cerveja se acumulam na mesa e não ajudam...
Mas podemos ainda falar de outra palavra. Em Portugal gostamos da miuda e damos umas voltas, adoramos a miuda e até temos uma relação de longo termos (duas ou 3 semanas no mínimo), e depois disso amamos. Não é que os gajos aqui é só "love" e quem estiver a ouvir que escolha o sentido e a intensidade que quiser. Depois admiram-se que acordam sozinhas na manhã seguinte!
Bem, esta história do amor dava pano para mangas, e este último parágrafo é talvez apenas fruto da soneira que me pesa nos olhos.
Os proximos posts deverão abordar questões como o facto de que os telemóveis e as companhias telefónicas não fazem ideia do que é serviço ao consumidor, as regras existem mas ninguem se chateia se não as levares muito à risca e, o princípio mor: "Se puderes fazer amanhã sai mais cedo hoje". É claro que temas mais sérios também serão abordados, tais como o sistema de ensino, o sonho americano (um bocadito mais a norte), os políticos e a política (só lhes falta falarem português) e afins.
E antes de acabar apenas uma palavra de grande apreço ao RC por esta grande iniciativa. Grande Padrinho!!!!

Um abraço gelado,
Virgilio Cadete

sábado, fevereiro 04, 2006

O 1o de muitos

Olá a todos. Inaugura-se hoje este blog, onde todos os dias um dos colaboradores dissertará sobre actualidade, à sua maneira, sem censura ou lápis azul.O objectivo é acima de tudo, ler bons textos, escritos por pessoas diferentes com visões diferentes da vida /sociedade em que vivemos.
A participação de outros é bem vinda.

Cumprimentos,

RC