quarta-feira, junho 07, 2006

A lenda de K.

Numa noite de verão, cálida e luminosa como só no norte da Europa se pode viver, trabalho como DJ numa festa de estudantes de intercâmbio. Após três horas de infatigável labuta, levanto-me e deambulo pela festa. Junto-me a dois estudantes, uma alemã e um italiano de baixa estatura. Comecamos a falar. A conversa corre fluida e fácil, muito contribuindo as três cervejas que os organizadores da festa foram-me deixando ao lado do computador enquanto seleccionava as próximas músicas. Uns momentos mais tarde, junta-se uma quarta personagem.
K. é um pouco mais alta que eu, magra, alva e resplandescente. K. sorri com olhos de côr azul marinho claro, K. é introvertida mas segura de si própria, K. é simples, decidida e sistemática. K. veio para a Noruega como estudante de design industrial e vai ficar em Trondheim por um ano. K. adora esquiar e trouxe todo o equipamento de slalom consigo. K. adora música. E foi assim que me seduziu.
- I´m tired now and I´m going home. Do you wanna come with me and listen to Kent?
Kent é uma banda de rock sueca que acaba de lancar o seu album de maior sucesso. Vapen & Ammunition. Kent enche um estádio com 100 mil suecos vestidos de branco no dia nacional da Suécia em 2003. K. adora Kent.
- Can you understand the text?
No seu quarto, à meia luz, sentados na cama, lado a lado, falamos até ser amanhã de manhã.

"Mitt land är ditt land, alt är fritt
Min dröm er din..."
*

À quatro anos atrás...

É raro o dia em que não penso em K.. O que é que ela faz agora? É K. feliz? Que pensa ela hoje? Por uns emails que trocamos esporadicamente, sei que vive em Gotemburgo, joga volleyball de praia e continua a navegar em pequenos barcos de competicão de vela ao fim-de-semana. De vez em quando visita os pais junto do lago Vänern, perto de Åmål. Creio que está sozinha agora. Das três parcas semanas que passámos juntos não sobrou muito mais na minha memória. Lembro-me que K. foi a pessoa mais bonita que alguma vez conheci. K. era forte e altiva como uma rainha. K. era o meu sonho escandinavo. Cada vez que vejo o Zlatan** a marcar um golo, a Carro** a ganhar mais uma medalha, cada vez que ouco uma balada de ABBA na rádio, Nina Persson** na MTV, um SAAB na estrada ou uma inevitável entoacão de sueco na rua, é K. de quem me lembro. K. é uma parte da Suécia, e a Suécia é uma parte de K. K. cristalizou-se na minha memória como a bandeira da vida que sempre quis ter. E a perda de K. é a explicacão das razões pelas quais nunca a terei. Existiram algumas mulheres na minha vida antes e algumas depois, mas K. é a ferida que mais tempo demorou a sarar.

O sonho continua. Mas sem K..

" Mitt land är mitt land bara mitt,
Din dröm är min nu..."*


*
Mitt land är ditt land, alt är fritt, Min dröm er din...= "O meu país é o teu, o mundo é livre, o meu sonho é o teu..."
/
Mitt land är mitt land bara mitt, Din dröm är min nu... = " O meu país é meu e é apenas meu, o teu sonho é o meu agora... [Kent, "Hagnesta Hill", "Kävlar själ", 1999]
** Zlatan [Ibrahimovic] é um dos mais populates futebolistas suecos; Carro [=Karoline Klüft] é a sueca campeã mundial e olímpica em título de heptatlo feminino; Nina Persson é vocalista dos "Cardigans"

terça-feira, junho 06, 2006

Em branco

Ora não querem lá ver o que me aconteceu hoje?
Eu bem que fui ao site d'O Publico, d'A Bola e do Diario de Coimbra mas nada me pareceu capaz de despertar a atenção, talvez porque as notícias tenham sido quase as mesmas nos últimos dias.
Relembro algo que me marcou no dia de hoje e nos últimos dias mas como não falei muito sobre o assunto acho que acaba por ser adequado.
Como qualquer grupo de amigos tem, o curso de Bioquímica tem um mail group já há bastante tempo e que nem sempre funciona da melhor maneira, mas por vezes acaba por ter mensagens importantes e algumas discussões como a que se gerou nos últimos dias.
Para quem não estiver dentro do assunto vou tentar resumir ao máximo, correndo o risco de ferir susceptibilidades, mas que se lixe.
Ora assim foi: Um caloirito andava perdido e decidiu atirar o barro à parede e ver se colava. Ora lá pôs ele a questão que a maioria não se atreve a fazer e é claro que as respostas foram desde o pôr-do-sol à beira-mar até à tempestade do século.
O que vi acima de tudo foi um choque de gerações, um choque de personalidades e um choque dos que ficam chocados porque acham que devem ficar chocados e fica bem, "prontos".
A verdade é que sempre existiram e sempre existirão diferentes perspectivas para uma mesma questão. Teremos sempre os radicais que defendem o preto e os que defendem o branco, e depois aqueles que estão ponderadamente nos diferentes tons de cinzento. É claro que há camaleões espontâneos, que ora são brancos ora são pretos e por vezes mesmo cinzentos.
Confesso que fiquei satisfeito pela forma como um caloiro juntou tantas pessoas de diferentes gerações bioquímicas a falar sobre um problema que nos afectou a todos e ainda nos afecta. Só espero que os vários professores que fazem parte do mesmo grupo retirem alguma coisa da discussão...
Abraço,
Virgilio

segunda-feira, junho 05, 2006

Lei da paridade=igualdade?

No último ano muita tinta tem corrido nos jornais portugueses relacionada com a lei que PS e Bloco de Esquerda aprovaram na Assembleia da República. A lei da paridade, estipulava a obrigatoriedade da existência de 1/3 de mulheres em lugares elegíveis nas listas partidárias!

As mulheres têm, com todo o mérito, pouco a pouco, conquistado o lugar que séculos de maxismo, motivado quer por motivos religiosos, quer pela própria sociedade, as privava! Hoje é cada vez mais comum encontrar mulheres em quase todos os sectores profissionais, mesmo em profissões que tradicionalmente eram exclusivamente masculinas! Os estudantes nas universidades já são maioritariamente do género feminino, muito embora quando se analise os números relativamente aos empregos de topo, quer em empresas públicas quer privadas, estes ainda serem maioriatariamente ocupados por homens! No entanto, fruto do trabalho, empenho e competências profissionais os números estão a mudar. Talvez não tão depressa como seria desejável, mas lá diz o ditado, "Roma e Pavia não se fizeram num dia"!

A imposição de quotas para mulheres, seja onde seja, é na minha opinião tudo menos democrático! Todos os lugares devem ser conquistados por mérito, fruto do trabalho e do empenho demonstrado! Na política tal não deverá ser diferente. E, curiosamente, como eu, pensam Comunitas e Ecologistas, Sociais Democratas e Populares, partidos de esquerda, centro-direita e direita! Sendo o nosso sistema eleitoral proporcional, seria ilógico defender que em regiões do país onde há cada vez menos população, os lugares elegíveis fossem ocupados não em função dos méritos, mas em função do género, seja ele masculino ou feminino!

Foi então com algum contentamento que li que o Presidente da República enviou de volta para a Assembleia da República a "lei da paridade" recomendando, entre outras, que em vez da obrigatoriedade de 1/3 se estabelecessem multas para as listas que não cumprissem esta razão, por forma a pelo menos chamar a atenção para estes números!

Cumprimentos,

RC

quarta-feira, maio 31, 2006

Inteligência animal!


Um grupo de etologistas numa universidade norte-americana decide estudar o comportamento de aves, de forma a compreender estratégias de aprendizagem e de utilizacão de ferramentas. Este é um dos padrões de afericão de inteligência descritos nas espécies primatas não-hominídeas. Muitos ouviram falar do exemplo de certos chimpazés que utilizam pequenos ramos para "pescar" formigas. Mas como aferir estas capacidades entre aves?

Decidem-se então a observar os corvos que vivem nas imediacões do campus. Para os entendidos em psicologia cognitiva é universalmente aceite que os corvídeos são dos géneros com o maior valor de QI entre os membros da classe das aves.

Após observacão, constatou-se que a populacão local de corvos alimenta-se de, entre outras opcões, nozes. O problema das nozes é o de que, embora nutricionalmente ricas, são revestidas de uma carapaca dura que os corvos não conseguem partir através da utilizacão do bico. Após alguma dose de experiência-e-erro, os corvos aprenderam que a melhor estratégia para partir as nozes é voar até uma certa altitude e deixar cair a noz. Mas esta estratégia depende largamente de onde é que a noz cai: quando as nozes caiem em terrenos não relvados ou arborizados, estas quebram-se mais frequentemente. Esta estratégia não elimina infelizmente o problema da competicão. Outros corvos oportunistas podem esperar escondidos perto das superfícies acimentadas ou asfaltadas de forma a que quando os seus companheiros de espécie deixam cair as nozes, se aproveitem deste maná.

Daqui surgiu uma outra estratégia mais elaborada. Alguns corvos descobriram que se abandonarem a noz aproximadamente no centro de umas superficies alongadas que se apresentam quase por todo o lado nas imediacões da universidade, mais cedo ou mais tarde aparece um objecto macico móvel que quebra a casca da noz por accão da sua passagem (nós, os humanos, chamamos a estas superfícies estradas, e as estes estranhos objectos ambulantes, automóveis). A única coisa que os corvos têm que fazer é esperar pacientemente pelo próximo engenho rolante e saltitar rapidamente em direccão à nóz (agora quebrada) após a passagem deste.

Mas esta estratégia tem as suas desvantagens. Ás vezes tem consequências fatais. Estes estranhos animais metálicos vitimam indiferentemente tanto nozes como aves. Para espanto dos etologistas, os nossos amigos corvídeos desenvolveram ainda mais um truque.

Alguns corvos aprenderam a utilizar esta estratégia mais selectivamente. Alguns compreenderam que é mais seguro deixar as nozes apenas nos pontos em que umas misteriosas linhas brancas paralelas sobressaiem do fundo azul-escuro. Ainda melhor: esperar na berma enquanto uma certa luz vermelha no topo de um poste vertical se encontra acesa e colher a noz apenas quando esta luz se apaga e uma outra luz esverdeada e um pouco mais abaixo se acende.

Genial, não é?
;-)
Paulo.

terça-feira, maio 30, 2006

Brincadeiras e gargalhadas

Mais um dia de trabalho (pouco) puxado. Chego a casa, tomo a bela da banhoca, ligo o portátil e verifico uma vez mais o que faz girar portugal no mundo das notícias. Lá fora chove quase torrencialmente por segundos e ao longe troveja.
A Bolanão me diz nada de novo, mas o Público faz-me rir, sorrir e pensar em tom de gargalhada o que já me tinha ocorrido aquando da publicação da notícia.
O Eduardo Prado Coelho nem sempre tem o meu apoio, mas as palavras de hj (ontem) fizeram-me sorrir:
Pergunto-me: mas os pais avaliam o quê? Se os professores são bonitos ou feios? Se as professoras usam ou não as saias curtas? Se vão à escola regularmente?"
Eduardo Prado Coelho, sobre a hipótese de os professores serem avaliados pelos pais dos alunos, PÚBLICO,

Pois eu acho muito bem que os pais façam parte do sistema educativo. Não só acho bem, acho essencial! Mas a avaliar professores???
Cada vez mais nos debatemos por uma maior participação dos pais na educação dos filhos, cada vez mais os pais estão ausentes das escolas e só lá vão mesmo quando os professores os chamam, e se for por outro qualquer motivo que não seja: O seu filho bateu num aluno! ficam mal dispostos, e a resmungar que se os filhos têm más notas a culpa é dos professores. Ou então há sempre o caso dos pais que se queixam que os filhos têm muitos trabalhos de casa.
Pôr os pais a avaliarem professores que nunca viram na vida só pode ser brincadeira de carnaval! Não me parece que dar aos pais o poder de avaliar os professores os vai aproximar mais das escolas e da educação dos filhos. E se pensarmos nos milhares de portugueses com filhos em idade escolar que são incapazes de os ajudar pois não possuem conhecimentos suficientes, como serão eles capazes de perceber o que lhes pedem para avaliar?
Bem, tenho apoiado muitas das medidas deste governo, mas esta... deu para umas gargalhadas!
Abraço
Virgilio

segunda-feira, maio 29, 2006

Bikram Yoga

Imaginem uma sala silenciosa, vapor a sair da parede, temperatura entre 37-42ºC, 20 pessoas estendidas num colchão de borracha (daqueles do campismo) com uma toalha entre o colchão e as costas da pessoa. O ar é irrespirável, mas como se está parado, ao fim de uns minutos habituamo-nos. O instrutor chega e começam-se a fazer os exercícios de alongamento. Começa-se a suar, por todos, todos os poros do corpo. A temperatura é insuportável, não há nada na sala que nos consiga refrescar! A garrafa de água, para além de começar a ficar menos cheia, começa a aquecer! Começam as primeiras náuseas...o corpo não está habituado a este ambiente quente e anaeróbio. Uma pausa e volta-se a tentar seguir os exercícios. Mais uns minutos, nova pausa. Desta vez tenho que sair da sala, arrefecer! Fabulosa a sensação de frio e de ar não saturado com água! 2-3 minutos, a respiração volta ao ritmo normal, o ritmo cardíaco acalma e estou pronto a voltar para dentro! Desta vez não voltei a sentir necessidade de sair da sala. Não consegui fazer os exercícios todos, mas outros mais rodados também começaram a fraquejar! Ao fim de 90 min, deitamo-nos de costas, o vapor deixa de entrar na sala, os olhos fecham-se e começa-se a ouvir os golfinhos e as ondas do mar a cair sobre a areia! Alguém entra na sala e deixa uma toalha ao lado de cada pessoa. Está ensopada em água fria! Fantástico. Coloco-a sobre a testa e deixo-me ficar uns minutos! Está na hora do duche, tirar a T-shirt ensopada em suor. A toalha parece que triplicou de peso, a T-shirt, nem se fala...Os músculos que durante toda a sessão estiveram relaxados devido ao calor, começam a contrair de novo! O chuveiro nas costas permite que esta contração não seja dolorosa! Visto-me e vou-me embora com aquela sensação de dever cumprido, que uma tarde de futebol das antigas, num quente dia de Verão, deixava em nós! A vida actual não permite essas tardes, muito menos estando pouco mais de 10 graus na rua!

Foi assim a minha primeira experiência com a Bikra Yoga na versão de Estocolmo. Uma experiência fantástica, cujo único senão é o preço! 200 coroas por uma aula, que podem ser reduzidos a 170, se se comprar um conjunto de 10 e se levarmos o nosso próprio equipamento. Se se optar pela mensalidade, pode-se ir as vezes que quisermos durante o mês por 1500 coroas, mas para tal opção compensar é preciso que estejamos fisicamente aptos a tal, o que actualmente não é o meu caso. Não sei se irei voltar a fazer ou se regressarei à Ioga, versão tradicional. Também gosto e é bastante relaxante, no entanto, não se sua muito e às vezes sabe bem suar!

Para aqueles que estão fartos de ginásios, ou mesmo de não fazer nada, recomendo vivamente experimentarem Ioga, seja que versão for. No dia a seguir vão ver que afinal o mito do desporto xato e monótono não passa disso mesmo: um mito! Eu estou rendido.

Cumprimentos,

RC

terça-feira, maio 23, 2006

A educacão vista de um ponto de vista escandinavo.

No post de ontem o Virgílio descreveu-nos alguns pontos do sistema de ensino canadiano. O sistema foi elogiado como sendo de qualidade. No entanto, despertou-me a atencão de se pagarem propinas altas, à semelhanca do sistema norte-americano, e desse esforco ser financiado pessoalmente, quer pelos pais (à semelhanca do sistema português), quer por empréstimos bancários.

Aqui na Noruega e nos países nórdicos existe uma política de educacão original e diria única no mundo. Sei que alguns leitores podem discordar comigo no que se refere às minhas opiniões pró-escandinavas de sistema político nórdico europeu, por serem demasiado socialistas e (hipoteticamente!) limitarem a liberdade de enriquecimento económico pessoal e priveligiarem o aparecimento de "preguicosos" que vivem à custa do estado e do sistema de bem-estar público. Concordo que é assunto de discussão as altas taxas de impostos, o proteccionismo económico de certos produtos e o monopólio do estado na maior parte dos servicos públicos. Mas um ponto que considero intocável, sagrado e quase sem discussão é o sistema da "Statens Lånekasse for Utdanning" que existe tanto na Noruega como também na Suécia, Dinamarca e Islândia, sob diversos nomes, mas com o mesmo princípio fundamental.

O princípio fundamental que serve de base a este sistema é a pedra-base da filosofia política escandinava: likestilling. Likestilling significa igualdade de estatutos, igualdade de tratamento, e, relevante para este tema, igualdade de oportunidades. É o termo mais importante do léxico político escandinavo. Tanto a Noruega como a Suécia têm sido campeões mundiais na aplicacão deste princípio na criacão de uma sociedade em que há igualdade entre os dois sexos, tanto do ponto de vista ideológico como no prático. Mas acima de tudo, para haver igualdade de oportunidades, tem de haver igualdade de acesso à educacão.

Em 1947, o estado norueguês criou a Lånekasse, em que todos os indivíduos maiores de 16 anos podem concorrer a receber uma bolsa do estado, uma espécie de salário mensal, de forma a poderem prosseguir os seus estudos. Esta bolsa foi primeiramente atribuida de uma forma progressista, isto é, dependia das capacidades económicas dos pais, mas na década de '70 tornou-se independente deste factor e hoje em dia toda a gente pode recorrer à Lånekasse (praticamente todos o fazem). Não existem muitos limites para o acesso à Lånekasse. Se uma pessoa de 40 anos decidir retomar os estudos, pode-o fazer com acesso a este fundo. A responsabilidade de apoio à educacão foi transferida dos pais para o estado. É considerado um direito fundamental da populacão o acesso à educacão. Tanto as escolas básicas como as do ensino superior são regidas sob o princípio da educacão gratuita, isto é, não existem taxas ou propinas e os programas escolares são planeados de forma a restringir as despesas privadas. Deste modo, as deslocacões pedagógicas (as chamadas "viagens de estudo") são parcialmente ou totalmente financiadas por fundos da escola, por exemplo. Os livros escolares podem ser comprados, mas existe uma rede desenvolvida de empréstimo anual organizado por parte das escolas (principalmente no ensino básico) e é extremamente vulgar o uso de livros "em segunda mão".

No entanto, não esquecamos que a própria palavra lånekasse revela a natureza desta bolsa: låne significa empréstimo, kasse significa fundo. Eventualmente o dinheiro emprestado pelo estado é pago novamente pelos alunos depois de acabada a sua educacão, mas de uma forma suave e lenta. Este empréstimo tem baixas taxas de juro e o aluno pode pagá-lo ao longo do resto da sua vida, a um ritmo negociado entre o indivíduo e a Lånekasse. No caso de morte, invalidez ou desemprego permanente, a dívida é cancelada. Em tempos de desemprego, o pagamento é automaticamente congelado. Os valores do empréstimo são ajustados de forma a fomentar o emprego sazonal no verão: são altos o suficientes para cobrir as necessidades básicas do aluno, mas não permitem luxos e muitos são aqueles que escolhem um emprego de verão de forma a ter uns trocos extra para cinema e umas cervejas de vez em quando.

Em relacão a possíveis críticas, este ordenamento não cria geracões de alunos preguicosos ou baixa o apreco dos mesmos pela sua educacão. Os alunos são tão (ou mais) competentes como qualqueires outros de outro país ocidental. Estes também não estão condicionados pelo nível económico dos pais ou pelas decisões destes (conheco casos em Portugal de pessoas que estudaram um curso de que não gostavam porque os pais ameacaram cortar o apoio económico se os filhos escolhessem outro curso). A Escandinávia é, talvez, o único ponto do planeta em que uma pessoa tem total liberdade de escolha no rumo a tomar na sua vida: quando se nasce, tem-se igual oportunidade de se vir a tornar carpinteiro, médico, primeiro-ministro ou astronauta, independentemente da situacão económica ou social dos pais, do sexo, raca, credo ou local onde se nasceu no país. Isto é, a meu ver, verdadeira liberdade e democracia!

Claro está que para financiar um sistema assim, é preciso forte contribuicão do Estado. E daí os impostos altos. Mas esta é uma daquelas regalias sociais que me dão justificacão suficiente para os pagar.

A educação, o nível de vida e a neve!

Depois de algumas semanas um pouco afastado da realidade regresso com mais umas palavras.
Já há algumas semanas que medito sobre o assunto da educação, estimulado por diversos emails da mailing list de bioquímica sibre Bolonha.
Estou num país diferente, e pegando no post de ontem do Ricardo, num país onde a qualidade de vida é bastante elevado.
Neste país a universidade é feita para os alunos (algo que sempre defendi) e a classificação e comentários dos alunos são tornados públicos. Existe mesmo um site acessível a todos onde essa informação é colocada e já muitos foram os alunos que vi a consultarem esse site para escolherem que cadeiras fazer. Uma Universidade feita para os alunos onde a maioria das cadeiras é dada por vários professores, que acabam por entrar em disputa pela melhor classificação, e dessa forma aplicam-se de maneira a satisfazer as ambições dos alunos. Desde cópias à nossa espera no início das aulas com os slides que vão ser apresentados, a resumos da matéria com respectivos capítulos dos livros recomendados. Uma universidade que disponibiliza aos alunos a possibilidade de, durante os supostos quatro meses de férias passarem-nos num laboratório a serem pagos, permitindo o desenvolvimento das habilidades de cada um nas mais diversas áreas. Mas claro que se o desejarem, têm dois semestres (termos) em que podem fazer cadeiras para adicionar ao curriculum.
E esta é a altura em que pensamos: Que sistema maravilhoso!
Pois, mas a verdade é que o valor das propinas é de tal ordem que os alunos pedem empréstimos para pagar propinas (ou os pais emprestam sem juros) para poderem frequentar a universidade, para exercerem um direito universal! A grande maoria dos alunos trabalham desde os 16 anos para juntarem dinheiro para ajudar a pagar a universidade, e muitas vezes quando lá chegam têm de continuar a trabalhar para se sustentarem, e depois quando acabam os primeiros anos são sempre para pagar esses empréstimos.
Agora reflectimos: será que vale a pena? E olhamos para o nosso pequeno Portugal. Na verdade será assim tão dificil demonstrar a estes países que é possível ter um sistema de ensino superior maioritariamente financiado pelo estado e com a mesma política de: "As Universidades existem porque existem alunos!"?
Consigo pensar num entrave a este sonho que tenho. É que por aqui, são muito poucos os licenciados desempregados. As universidades existem para o mercado em que estão enquadradas e dessa forma um tal investimento por parte dos alunos é recompensado. E em Portugal todos sabemos como estão as coisas, como as Univresidades estão desenquadradas do mundo que as rodeia.
Podia estender-me aqui falando de como se ganha muito dinheiro na construção ou nos poços de petróleo, o que é também um factor importante, mas acho que no seguimento das palavras do Ricardo tinha de referir esta peculariedade de um dos países com maior qualidade de vida. Mais uma vez confirmo que a educação, e a boa educação, enquadrada no tempo e espaço é uma ferramenta vital para o desenvolvimento de um país e o melhoramento da qualidade de vida.
Porque será que demora tanto tempo aos políticos portugueses abrirm os olhos e ver o que já mais de meio mundo percebeu?
Abraço da terra onde já não há neve e a primavera veio em força

segunda-feira, maio 22, 2006

Qualidade de vida

Foi recentemente divuldado pela consultora Mercer um relatório com os dados relativos aos indices de qualidade de vida em 215 grandes metrópoles mundias para o ano de 2006.

É curioso que nas 10 primeiras posições aparecem 7 cidades Europeias: Zurique e Genebra (Suiça) encabeçam a lista, seguidas por Vancouver (Canadá), Viena (Austria), Auckland (Nova Zelândia), Dusseldorf, Frankfurt, Munique (Alemanha), Berna (Suiça) e, a fechar o top ten Sidnei (Austrália). A tabela é claramente dominada pelas cidades Europeias.

Para elaborar este estudo, a Mercer utilizou 39 critérios diferentes, tais como políticos, ambientais, sociais, económicos, criminalidade e segurança, saúde e educação, transportes públicos e outros serviços públicos. A cidade utilizada como termo de comparação para elaborar o ranking foi Nova Iorque (46ª posição).

Lisboa aparece bem posicionada neste ranking, 53º logo atrás de Milão e à frente de cidades como Birmingham, Glasgow, Los Angeles, Roma, Miami, Hong Kong, Praga, etc...

Relativamente às cidades Escandinavas, Copenhaga aparece num honroso 11º posto, Estocolmo desce um lugar para o 20º relativamente a 2005, Helsínquia é 29ª e Oslo é 31ª.

Uma reflexão relativamente aos dados da tabela demonstra que a Europa do Norte e Central e o Canadá são as regiões do mundo onde se encontra melhor qualidade de vida, seguidas de perto pela Europa Ocidental Austrália e Nova Zelândia.

A mesma consultora também publicou uma tabela em que analiza o custo de vida nas mesmas cidades. Tóquio lidera a lista, seguida de Osaca, também no Japão. Londres e Moscovo seguem logo atrás.

A lista completa das cidades pode ser visualisada gratuitamente neste site (no site da Mercer só temos acesso às 50 primeiras).

Cumprimentos,

RC

segunda-feira, maio 15, 2006

Scolari,Baía (e outros), Quaresma (e outros)

Scolari chegou a Portugal em 2003, tendo desde logo a sua contratação sido contestada por diversos sectores da sociedade, mais concretamente do mundo do futebol. Desde a Associação de treinadores, que argumentava que o treinador campeão do mundo em 1998 nos EUA não tinha os cursos que lhe eram exigidos, a alguns dirigentes de clubes da nossa praça, que viram defraudadas as esperanças de mais uma vez terem um seleccionador do sistema que convocasse os seus jogadores, não por mérito, mas no sentido de os valorizar! muitas vozes se levantaram contra os vencimentos de Scolari e sua equipa técnica!

Mas a entrada de Scolari no seio da selecção também foi polémica desde logo por deixar de fora alguns dos até então inquestionáveis seleccionáveis. Falo de João Pinto, Sérgio Conceição e, claro, Vítor Baía. A respeito deste último assistiu-se a uma autêntica novela, alimentada por "jornaleiros e comentadeiros" da nossa praça! Os outros 2 foram ignorados, mas Baía foi tratado como um Deus na nossa mass media.

Poucos sabem o que de facto se passou no Mundial da Coreia/Japão, mas algo se terá passado. Muitos foram os desabafos de jogadores, mas que não passaram disso mesmo: tiros para o ar, sem apontarem a alvos definidos! Os boatos e as histórias sobre as superstições do Oliveira, as idas aos casinos entre outras foram mais que muitas. A polémica "passagem" de Ricardo de titular a suplente na fase final foi esquecida. No entanto, não há nenhum adepto que não ache que situações estranhas de facto aconteceram, ou se os há, nunca os vi/li/ouvi!

Só por este conjunto de evidências, não estranhei que aquele grupo de 3 jogadores, deixasse de ser chamado à selecção! Mas claro, só de Baía se fala...

Depois o processo de naturalização de Deco em que os que até aí contestavam, de um momento para o outro passaram a aplaudir! E os que o apoiavam passaram a contestar. Deco lá está, é jogador da selecção, e foi mais uma batalha ganha por Scolari.

Scolari lá foi fazendo o seu trabalho, as suas experiências. Levou-nos pela primeira vez à fase final de uma grande competição de clubes. As vozes contra acalmaram-se, mas não desapareceram...Estavam apenas à espera do momento certo para voltarem a lançar as alfinetadas da praxe! Primeiro, quando Ricardo passou por um mau (para não dizer exasperável) momento de forma. Em vez de questionarem a titularidade deste, voltaram a contestar a não convocatória de Baía...vá-se lá saber porquê!? Depois quando o seleccionador, como qualquer pessoa que gosta de desafios e não gosta de estar desempregada, aceitou falar com representantes da federação inglesa, foi o carmo e a trindade.

Hoje vai ser divulgada a lista de convocados para o Mundial. Desta lista, pelos vistos, não faz parte o nome de Ricardo Quaresma. Este jogador do Porto, tem sido uma eterna promessa. Esta época teve 3-4 meses geniais, em que foi o motor da equipa do Porto. Os seus cruzamentos de "trivela" punham a cabeça em água às defesas. Mas de um momento para o outro voltou a ser aquilo que era desde os tempos do Sporting: um malabarista, que joga sozinho e que não sabe o significado de jogo de equipa! Vergonhosa a sua actuação no jogo com o Sporting, em que poderia ter causado graves lesões a pelo menos 2 jogadores. Até o seu treinador viu isto e substitui-o de imediato, tendo este abandonado de imediato o terreno de jogo da direcção dos balneáreos sem cumprimentar ninguém! A comunicação social, mais uma vez, está a endeuzar o jogador. Já se fala de uma calamidade, da falta de soluções e que Quaresma seria o salvador da pátria! O que é certo é que, sem Quaresma, a selecção qualificou-se para o Mundial, com uma perna atrás das costas! Espetámos 7-1 à Rússia, que, mesmo não sendo a Rússia de outros tempos, continua a ser uma das boas selecções Europeias. E Quaresma...pouco jogou!

A mim preocupam-me mais outros nomes. O nosso ataque está muito bem servido! Em vez de Postiga talvez levasse João Tomás. Não levaria Maniche nem Viana pois pouco jogaram nos seus clubes e o pouco que jogaram não foi convincente. Costinha é o líder da selecção, mas não joga há 6 meses. Talvez o levasse, se houvesse uma vaga para ele, e olhando para os trincos de nacionalidade portuguesa que temos, parece-me que não há muito por onde escolher. Meireles talvez fosse uma boa opção pelo final de época fantástico que fez mas, tal como Quaresma, é um jogador de altos e baixos! Na defesa diz-se que Ricardo Costa vai ser convocado. Não compreendo esta chamada de um jogador que ainda não se afirmou e havendo outras boas opções como: Nunes, R Rocha, Zé Castro.

Qualquer que sejam os jogadores anunciados hoje às 20 h de Portugal Continental, no dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, voarei para a Alemanha. No dia seguinte lá estarei em Colónia a apoiar os 23. Espero lá voltar mais uma vez para o nosso jogo dos 8os.

Até lá, deixem o homem trabalhar e deixem-nos sonhar. Farto de profetas da desgraça estamos todos!

Cumprimentos,

RC

ps: sempre me opuz à naturalização de Deco. Hoje aplaudo-o mas não vibro com ele. Enfim, é o meu lado nacionalista e a minha visão de que para nos sentirmos portugueses e sabermos o significado e peso do escudo que aqueles jogadores envergam ao peito, não basta viver uns anos em Portugal, é preciso nascer no meio daquelas estórias e mitos!

quarta-feira, maio 10, 2006

Liberdade da imprensa

É sempre bom ver o seu país no topo da hierarquia nas estatísticas mundiais em qualquer área. Revela que o seu país tem uma característica na qual é o melhor (ou o pior!) do mundo. No caso de Portugal, somos os maiores na producão de cortica, estamos no topo na azeitona, fomos os primeiros a banir a pena de morte, somos dos poucos que produzimos urânio e infelizmente também estamos no topo europeu de consumo de álcool per capita e mortes por acidentes de viacão na estrada (haverá correlacão?!).

Recentemente atraiu-me a atencão a hierarquia dos países com os mais altos índices de liberdade de imprensa, lista esta compilada pela organizacão internacional "Reporters without Borders". Esta lista foi preparada baseada no inquérito realizado nos diferentes países e conta o número de ataques directos a jornalistas nos países estudados (por assassinato, tortura, imprisionamento ou ameacas) ou à imprensa nesses países (censura, confiscacão, pressão e rusgas). Também toma em consideracão a impunidade que os perpetuadores destes crimes gozam nesses países. Este questionário não se debruca exclusivamente sobre a pressão exercida pelo estado na liberdade de expressão, mas também sobre possíveis milícias ou lobbies passíveis de restringir esta liberdade. Para além dos jornais, TV e rádio, o espaco cibernáutico também é tomado em consideracão neste estudo.

No relatório de 2002, estamos entre a nata mundial (num honroso 7. lugar a ombros com a Alemanha e a Suécia), e somos apenas superados pela Islândia, Finlândia, Noruega, Holanda, Canadá e Irlanda. Note-se o 17. lugar dos Estados Unidos, ainda na ressaca do 11 de Setembro com as consequentes medidas políticas de seguranca que se lhe seguiram. É com orgulho que vejo Portugal à frente de nacões como a Dinamarca, Franca e Reino Unido nesta lista. No entanto, quando comparamos com o relatório de 2005, vemos que Portugal descaiu um pouco no ranking, para o 23. lugar nos ultimos anos. Esta queda não é tão dramática como a ocorrida por parte do Canadá (21.), Franca (30.) ou EUA (44.), mas a tendência preocupa-me um pouco. Vendo algo positivo nesta lista, note-se que não são só os países ocidentais e com boa economia que lideram a lista. Paises com um PNB per capita inferior a $1000 por ano encontram-se bem posicionados, entre os quais Benim (25.), Mali (37.), Bolivia (45.), Mocambique (49.) e Timor Leste (58.). Dos países europeus Bela-Rússia encontra-se num escandaloso 152. lugar, fazendo companhia a países como o Iraque (157.), China (159.), Cuba (161.), Irão (164.) e Coreia do Norte (último, 167.).

No relatório de 2005 da organizacão Freedom House, estamos no topo da liberdade de expressão.

Até para a semana!
:-)
Paulo.

terça-feira, maio 09, 2006

Sem Palavras

Ora portanto, foi assim:
Jogo de basebol (em que eu joguei), pizza de borla, jogo de hoquei e 13 ou 14 jarros de cerveja depois apenas me restou ir directo para a cama que nao parava de rodar e acordar pela manha com uma ressaca....
Portanto ah minha maneira la celebrei a queima...
Abraco,
Virgilio

segunda-feira, maio 08, 2006

Paris, Sol, calor, queima, amigos, família...

São semanas destas em que me apercebo do que está para trás, do que ficou em Portugal, dos momentos que vivemos apenas uma vez na vida e que só têm aquele significado, naquele contexto, naquela situação, naquela altura!

O Sol Primaveril e o calor de Verão que encontrei em Paris fizeram-me esquecer por completo as nuvens e o frio que no mesmo dia tinha deixado para trás em Estocolmo! A cerveja mais pesada fez-me lembrar que dentro de dias iria estar a beber a verdadeira cerveja portuguesa. Os filhos dos emigrantes nas ruas com camisolas da selecção (devo reforçar que eram todas do C Ronaldo!!!) fez-me lembrar que dentro de 1 mês serei eu a andar com a minha camisola nas ruas da Alemanha, espera-se, a fazer a festa.

No regresso a Coimbra foi bonito ver que as tradições se mantêm. No sítio do costume, à hora do costume, imediatamente antes da serenata, um caloiro voluntaria-se a ser rapado. Este ano, para surpresa minha, vários o fizeram!!! Depois o reencontro com os colegas de outras queimas, o revivalismo de momentos passados, os risos, as rodadas...

Depois voltar a dormir num quarto escuro, com persianas e acordar lentamente na manhã seguinte. À noite o tradicional jantar com a malta do curso de 98, que contra todas as expectativas (já que está um em cada canto do mundo) continua a ser um sucesso. O regresso ao Queimódromo, o eterno suspiro quando se olha para a Cabra iluminada contemplando o rio. O saltar de barraca em barraca até que a noite acaba e se faz dia e são horas de regressar ao lar para no dia a seguir fazer os preparativos para regressar à morada actual, não sem antes jantar com a família, ver os miudos a crescer e mais uma vez pensar que o mais novo não me conhece de lado nenhum, apesar de olhar para mim com cara de quem me quer dar confiança!

No final, um longo regresso a casa, com algumas peripécias à mistura, devorando 2 jornais diários do principio ao fim, e dando início ao consumo de duas das revistas semanais que costumo consultar!

Resta-me encerrar este capítulo. Para o ano outro se escreverá, espero eu, e que seja em quase tudo igual a este! Pode parecer monótono, mas há coisas que nunca deviam mudar!

Cumprimentos,

RC

quarta-feira, maio 03, 2006

Pelle, o Conquistador


Na bela manhã do primeiro de Maio de 2006, dou comigo a acordar cedíssimo e sem nada que fazer, para além de trabalho, muito e infindável, que espera por mim pacientemente e intrasigente no meu escritório a meros duzentos passos de casa. Ligo então o televisor - vicío este que comeca a ser habitual - e surpreende-me a figura envelhecida e hesitante de Max Von Sydow perdido no nevoeiro dinamarquês, a caminho da quinta de Stengården. Não fosse este ser o primeiro de Maio e o romance centenário "Pelle, Erobreren" escrito pelo dinamarquês Martin Andersen Nexø entre 1906 e 1911, ser o expoente máximo da literatura socialrealista com inclinacões comunistas no cenário escandinavo. O filme homónimo que venceu o Óscar de melhor Filme Estrangeiro em 1988 baseia-se no primeiro volume da obra de Nexø, "Barndommen", no qual a infância da personagem principal, Pelle, é retratada. A obra prossegue com três outros igualmente extensos volumes que retratam a aprendizagem da profissão de sapateiro na cidade de Rønne, o seu crescimento como adolescente, a migracão para Copenhaga onde Pelle se estabelece, o crescimento da sua família e a luta como líder do movimento sindical. O romance debruca-se principalmente sobre o aparecimento e crescimento do movimento sindical organizado na Dinamarca e na luta do proletariado dinamarquês. O livro é quase auto-biográfico. No entanto, o realizador Bille August retrata-nos a dureza da vida dos trabalhadores emigrados do sul da Suécia para a Dinamarca e, especialmente, na relacão entre pai (Lasse) e o seu filho (Pelle) no filme de 1988. A luta pela existência e a desigualdade social, temperadas por um forte toque de humanismo, são alguns dos aspectos mais relevantes que nos são transmitidos ao longo da história. A adaptacão cinematográfica brilha pela capacidade do realizador em concentrar a atencão da narrativa nas duas personagens principais. No livro, a narrativa é uma empresa colectiva onde a vida de todos os habitantes da quinta é descrita em paralelo.

Lasse e Pelle emigram da região de Skåne, no sul da Suécia, para a ilha de Bornholm, em pleno mar Báltico, com o sonho de arranjar emprego. A Dinamarca era vista então, por parte dos suecos de Skåne, como a terra do leite e do mel, onde todos são ricos e gozam uma boa vida. No entanto, as condicões de vida na Dinamarca e na Suécia em finais do século XIX acabam por não ser assim tão diferentes. Pai e filho tem dificuldade em arranjar trabalho: Lasse por ser demasiado velho, Pelle por ser demasiado novo. Acabam por ser contratados pelo proprietário Kongstrup e mudam-se para a quinta de Stengården ("Quinta de Pedra"), onde todos os sonhos se perdem. O mundo rui para Lasse, enquanto Pelle enfrenta corajosamente o seu futuro. Lasse aceita impotente e com resignacão o seu destino, ao contrário de Pelle que se adapta e mantém a capacidade de sonhar, facto este que se expressa até a nível linguístico: Pelle aprende e utiliza o dinamarquês após alguns meses na quinta, enquanto Lasse continua a utilizar o sueco cantante de Skåne ao longo de todo o filme (curiosamente, Max Von Sydow nasceu em Lund, sendo o Skånsk provavelmente o seu dialecto original). Pelle estabelece uma relacão de amizade com Erik, o revoltado, e juntos partilham o sonho de se libertar da escravidão da quinta e emigrar para a América e conquistar o mundo. Por fim, mesmo apesar da desistência de tanto Erik como de Lasse, Pelle abandona Stengården e parte sozinho rumo ao desconhecido, deixando uma réstea de esperanca em aberto no final do filme.

O filme é um diamante do cinema escandinavo, talvez um dos maiores. É uma das melhores interpretacões na carreira de Max Von Sydow, premiada com a nomeacão para o Óscar de melhor Actor desse ano. Max Von Sydow é daqueles actores que já fez todos os papéis possíveis e imaginários, entre os quais: em 'The Seventh Seal' (1957) , 'Nils Holgerssons underbara resa' (1962) , como Deus em 'The Greatest Story Ever Told' (1965), como padre em 'The Exorcist' (1973), imperador Ming em 'Flash Gordon' (1980), rei D. João II de Portugal numa série de TV 'Cristovão Colobo' (1985), vilão em 'Minority Report' (2002), entre muitos, muitos, muitos outros (na sua carreira contam-se presencas em 128 filmes desde 1949 até hoje, contando-se producões suecas, dinamarquesas, italianas, francesas, americanas, norueguesas e alemãs). Para além deste, temos a interpretacão infantil de Pelle Hvenegaard (Pelle) e o papel de Bjørn Granath (Erik) como igualmente interessantes. Para os mais ligados ao cinema escandinavo, note-se também um dos primeiros papéis da actriz dinamarquesa Sofie Gråbøl como Miss Sine.

Para os amantes de cinema, recomenda-se. Para os amantes da cultura Escandinava, um filme a não perder, tanto pela mescla de dialectos e tradicões escandinavas, como também pelos pormenores sociohistóricos. E pela paisagem - o cinzento plano e quase desértico da paisagem costeira dinamarquesa é dominante em todo o filme. Para os (ainda) mais interessados, recomenda-se a leitura do livro e talvez até uma visita ao túmulo do autor no cemitério Assistens Kirkegård no bairro de Nørrebro em Copenhaga (juntamente com os túmulos da família Bohr, do filósofo Søren Kirkegaard e o escritor Hans Christian Andersen) . Só de escrever isto, dá-me saudades da Dinamarca!

Hei hei! E até para a semana! ;-)

terça-feira, maio 02, 2006

Bola no Domingo, Hoquei na segunda

No domingo acordei cedo para ir ver o Glorioso.
Local: Charcutaria Micaelense (sim, donos de S. Miguel, Açores, Portugal).
Não foi pelo jogo em si, que pouco mais há a acontecer no campeonato, mas pela experiência.
É mais um bocadinho de Portugal que descubro por aqui. E foi quase tal e qual como acontece por aqui: os sportinguistas a torcerem pelo Setubal e os benfiquistas a gozarem com os sportinguistas e com o resultado do Rio Ave-Sporting.
Falava-se português, por vezes com sotaque açoreano, por vezes com sotaque canadiano, mas falava-se português. Os palavrões estavam lá todos, a garra, a mística e a rivalidade também. E durante hora e meia senti-me quase em casa.
É claro que ver o Benfica a jogar às 11:30 e beber uns martinis e umas cervejas a essa hora foi um bocado estranho, mas a bela da bifana e da cervejola para o almoço caiu que nen ginjas!!!
Depois foi a segunda-feira.
A equipa cá do sítio atingiu um feito que lhe escapava há mais de oito anos. Não, não estou a falar de taças ou campeonatos, mas sim do facto que pela primeira vez nos últimos 8 anos os Oilers passaram a primeira fase dos playoffs da conferência do Oeste. As ruas encheram-se de pessoas mais ou menos embriagadas, mas todas em extâse absoluto. Buzinas, caravanas, camisolas e bandeiras. Uma cidade inteira em festa e eu com vontade de buzinar também, com vontade de ir para a rua e festejar a manutenção da minha briosa, o campeonato do benfica, ou o título de campeão mundial da nossa selecção.
Mas estando o porto como campeão, e eu demasiado longe para a manutenção da briosa, resta-me esperar estar em portugal por alturas da final do campeonato do mundo e gritar tão alto que toda a gente em Edmonton me vai ouvir...
O desporto tem destas coisas...
Abraço,
Virgilio

PS - Lets Go OILERS, Lets GO!
PS2 - BBBBBBBBBRRRRRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!

segunda-feira, maio 01, 2006

Renováveis

Seguinda a linha de alguns dos últimos posts e discussões, hoje falo sobre as renováveis.

A energia solar, como o nome indica, provém da captação da energia solar e conversão desta noutras formas de energia - térmica ou eléctrica.

Das energias chamadas renováveis, esta é aquela que tem um custo de produção mais elevado (cerca de 320 euros por MW, sensivelmente 4x mais que todas as outras formas de produção de energia), mas estes valores médios serão, na minha opinião, diferentes de país para país devido ao número de horas de Sol e da intensidade da radiação que atinge a superfície.

Foi anunciada, na semana que passou, a construção da maior central solar do mundo no concelho de Serpa, que irá ter capacidade para injectar na rede eléctrica nacional 20 GW anuais. Esta será a maior central do mundo apenas até a de Moura, também no Alentejo estar construida! Esta está dependente da construção inicial de uma fábrica de painéis solares e quando estiver concluida terá uma capacidade de produção mais de 4 vezes superior à de Serpa.

A escolha do Alentejo para a instalação destas centrais não é de todo inocente! Com 2200 horas médias de exposição solar anual, esta é a região da Europa com maior número de horas de exposição solar, o que torna desde logo os projectos nestas áreas atractivos! Pena que demorem tanto a pensar, executar e iniciar!

Os investimentos nas renováveis no nosso país, nestes últimos anos, principalmente desde que Sócrates tomou posse, têm crescido exponencialmente. O objectivo é tentar que a compra de quotas de emissão de carbono seja o mais baixa possível, já que, de outra forma, será impossível cumprir o protocolo de Quioto. Neste particular deveriamos investir muito mais em formas de energia abundantes no nosso país, das quais destaco: solar, marés e biomassa. EM relação à solar, parece-me que estamos no bom caminho. A energia das ondas (marés) é ainda uma miragem. Estão neste momento 8 projectos em fase de testes espalhados pelo país e regiões autónomas. Por último a biomassa, que consiste na queima de detritos e aproveitamento desta queima para produção de energia, chegou à agenda dos responsáveis do país após os gravíssimos incêndios que têm assolado o país nos últimos anos. Irá ser construida a primeira central de biomassa do país no distrito de Coimbra (salvo erro em Vila Nova de Poiares), dentro de poucos anos... Pena que tenha sido necessário arder grande parte do distrito para que as pessoas se apercebessem que afinal ainda era possível obter lucros a partir da silvicultura!

Hoje foi anunciada a construção de uma fábrica de painéis solares no concelho de Oliveira do Bairro, que ambiciona ser lider Europeia do sector. Sendo que os investimentos relacionados com a energia solar têm crescido a um ritmo de 30% ao ano a nível mundial, não me parece um investimento de risco, desde que invistam ao mesmo tempo em I&D pois neste sector, se não o fizeram, rapidamente serão ultrapassados por concorrentes que o façam!

Infelizmente, no estado actual, as energias renováveis não permitem a autosuficiência energética de um país. Tal não significa que não se deva investir nestas formas de energia. Num país como o nosso é um crime que não seja obrigatória a instalação de painéis solares em prédios e casas! Os custos imediatos de tal instalação seriam compensados com a poupança a médio prazo em aquecimento e electricidade! Mas infelizmente, por norma, empreiteiros e particulares, só pensam no imediato e nos custos do projecto, sem saberem que há subsídios aos quais se podem candidatar para instação desses sistemas!

O panorama geral do país é no entanto bastante animador. Espero que o investimento em renováveis e negócios associados a estas continue a crescer. Por um país verde e saudável...;)

Cumprimentos,

RC

quarta-feira, abril 26, 2006

Chernobyl - 20 anos depois.


Hoje faz-se 20 anos desde o maior acidente nuclear da história da utilizacão pacífica da energia nuclear. Aconteceu à 1:23 (hora local) de 26 de Abril de 1986, no ano horribilis da tecnologia científica (o desastre da Challenger aconteceu a 28 de Janeiro do mesmo ano). O reactor número 4 da central de Chernobyl explodiu após uma série de testes de capacidade levada a cabo pelos técnicos da central, levando à fusão do cerne nuclear no reactor. Com a explosão do reactor, grandes quantidades de material radioactivo foram libertadas para a atmosfera e estas partículas espalharam-se sobre a União Soviética (principalmente Ucrânia, Bielo-Rússia e Rússia), Europa de Leste e Europa Ocidental, Escandinávia e as ilhas Britânicas. O acidente levou ao evacuamento e/ou transferência de 336 mil pessoas dentro das repúblicas soviéticas. 56 mortes foram atribuídas directamente ao desastre (47 trabalhadores no acidente, mais 9 criancas vítimas de cancro na tiróide, devido à acumulacão de iodo radiactivo). No entanto, esudos da IAEA (International Atomic Energy Agency) e da WHO (World Health Organization) apontam para um total de entre 4000 a 9000 fatalidades associadas à exposicão a níveis elevados de radiacão nos anos que se seguiram ao acidente. A organizacão ecologista internacional Greenpeace eleva este número até aos 93 mil. Hoje em dia encontram-se vilas e cidades inteiras nas imediacões de Chernobyl quase completamente desertas como consequência do acidente. De acordo com a IAEA, a quantidade de radiacão libertada durante o desastre de Chernobyl corresponde a 400 vezes a libertada na explosão de Hiroshima em 1945 [1].



A lista de acidentes associados à utilizacão de energia nuclear, quer militar ou civil, é extensa (muito extensa! Por favor, vejam as referências 1, 2 e 3), salientando-se os exemplos mais conhecidos como os de Chernobyl (1986), Three Miles Island(1979) e o acidente de Goiânia (1987). Desde o acidente de Three Miles Island que os EUA congelaram os seus planos de construcão de centrais nucleares até ao presente, embora esta atitude governamental se encontre actualmente sob revisão devido à política energética da administracão actual.

Com este post gostaria de suscitar reflexão sobre o preco que pagamos pela producão de energia eléctrica atravès do uso de energia nuclear. É certo que este tipo de energia é quase "limpa" quando comparada com as emissões de gases poluentes provenientes de outras fontes de energia dependentes da queima de combustíveis fósseis. E que é quase inesgotável. Mas os custo de apenas um único acidente são exorbitantes. Durante as operacões de rescaldo e limpeza após o acidente de Chernobyl, foram utilizados cerca de 300 a 600 mil "voluntários" (tornaram-se oficialmente conhecidos como "liquidators") numa área de 30 km circundante à zona do desastre, de forma a restringir a libertacão de substâncias radioactivas para o ambiente. Algumas centenas destes trabalhadores combateram o fogo imediatamente após a explosão, contando-se uma taxa de mortalidade entre estes de 50 % na primeira década após o acidente. Daqui pergunto-me: dado o sistema político vigente na Ucrânia naquele período da história, foi possível arranjar "voluntários" essenciais para o controlo e restricão do acidente; se o acidente acontecesse hoje em dia numa pacata vila no centro de Franca ou Alemanha, interrogo-me profundamente quantas pessoas encontrariamos dispostas a conscientemente oferecer a sua vida na pira nuclear resultante, de forma a salvar a vida de todos nós, os outros. Ou ainda, imagine-se zonas densamente populadas na Europa central obrigadas a evacuar populacões inteiras recolocadas devido a um acidente nuclear (imagine-se nacões como o Luxemburgo, Bélgica ou Holanda obrigadas a evacuar devido a um acidente). O problema da utilizacão da energia nuclear é de que não deixa margem para erros. Em caso de acidente, as áreas e as populacões afectadas assumem dimensões supra-nacionais.

Tendo isto em consideracão, estou orgulhoso dos exemplos como Portugal e a Noruega que optaram pela abstinência da utilizacão de energia nuclear para fins não-científicos. É pena que muitos outros países, tanto no mundo ocidental como na esfera de países em vias de desenvolvimento, não sigam este exemplo.

P.S.: Já sei que vou ser criticado pela minha opcão anti-nuclear, so bring it on! Uma vez mais, tal como no caso do post referente à aviacão comercial, para mim a solucão prende-se na reducão do consumo e na alteracão dos estilos de vida, mas sintam-se à vontade para escrever comentários...

terça-feira, abril 25, 2006

Liberdades

Nao podia certamente deixar passar este dia em claro!
Ha 32 anos comecava a desenhar-se o que hoje temos em Portugal!
E se para uns foi a concretizacao de um sonho, para outros era o fim.
Hoje, alguns sonhos tornaram-se num pesadelo. Eh claro que que a revolucao nao foi perfeita e o que foi feito pela revolucao, e nome da revolucao, resultou muitas ezes em "aentados" ah propria revolucao.
Por muitas vezes dei por mim a culpar a revolucao pelos males do nosso pais! Nao que considere que a revolucao foi um erro, isso nunca seria capaz de dizer em momento algum, mas porque a revolucao deu cobertura a muita coisa e serviu de desculpa a muitas mais.
Mas se o 25 de Abril de 1974 foi o principio de um sonho, acho que 32 anos depois esta na altura de acordar. Por muito bela que seja a Bela adormecida em sono profundo, ha que acordar e fazer outra revolucao. Nao digo que devemos esquecer o que aconteceu, mas esta na alura de guardar as memorias no sitio certo e partir para uma nova vida!
Eh bonito, o Fado, mas esta na altura de cantar mais alegre, limpar as lagrimas e sorrir, deixar os sonhos e viver a realidade.
Sim, a realidade do nosso pais eh dura, mas pelo menos temos hoje a liberdade de o dizer alto e em bom som, hoje tenho o direito de escrever estas palavras sem medo que eu ou os meus familiares sejam presos e torturados.
E estando na altura de acordar, ninguem melhor que nos para o fazer. Porque nos nao nascemos o sonho, as vivemos o sonho, e ganhamos o vicio de desculpar os fracassos com o sonho!
Acordemos e comecemos a revolucao hoje mesmo!

Quente e frio

Pois nao querem la ver que o meu portatil decidiu meter baixa por problemas na canalizacao e agora nao tenho acentos, nem cedilhas???
E como se tudo isto nao bastasse, quando pensava que depois da tempestade vinha a bonanca... Qual Katrina surgido do Atlantico... Pimbra!!!!!!!!!!!! Mais trabalho ainda.
Mas nao estou aqui hoje para me lamentar da minha vida de estudante/cientista=escravo! Hoje falo-vos de algo que me tem surpreendido nos ultimos tempos e que me deixa com uma pontinha de medo.
Com o tempo a correr tao depressa, e tendo saido de Portugal, terra Mae, ha ja quase um ano, chega a altura de comecar a pensar num regresso merecido para umas ferias.
Depois de um Inverno que os canadianos consideraram muito "simpatico" (apesar de ainda nao ter percebido qual a simpatia de umas valentes semanas com temperaturas a rondar os -20, vento e mais de 30 cm de neve por todo o lado). Mas como ia eu dizendo, depois de findo o Inverno, as coisas aqueceram, o sol despontou forte e quente e as nuvens aparecem uma vez por semana para dizerem que ainda estao vivas.
Conversava com pessoas conhecidas, matava saudades, e ah pergunta do costume (Como eh que esta o tempo?) eu respondia com um satisfeito: Esta quente!
Mas nao querem ver que o meu termometro variou por completo??? Depois de ter ido ah rua fumar um cigarrito em mangas de camisa arregacadas e ter esturrado... Volto ao lab, abro o site da univ... E nao eh que estao apenas 6 graus la fora???
Ora imaginem la como vai ser voltar a Portugal em pleno Verao, 40 graus ah sombra???
E se gordura nao eh coisa que abunda no meu corpito (barriga de cerveja nao conta) rapidamente ficarei frango de churrasco quando chegar a casa!
Alguem tem experiencia no assunto? Aceitam-se sugestoes para sobreviver!

Abraco
Virgilio

segunda-feira, abril 24, 2006

Vida longa vs Vida curta!!!

Desde há séculos que os seres humanos buscam a fonte da vida eterna ou algo que lhes permita prolongar a presença neste planeta! Desde a teoria da conservação do calor corporal de Aristóteles, ao Taoísmo que apela à abstençao do consumo de carne e álcool e a regueração nos comportamentos sexuais, passando pelos extractos especiais de testículos de cães (o que será a especialidade destes!) até ao veneno produzido no intestino grosso a partir da degradação dos alimentos (trabalho publicado pelo Nobel Metchnikov em 1908), muitas teorias e tentativas de prolongar a vida foram e continuam a ser procuradas pelas mais variadas pessoas! Uma das mais famosas buscas pela vida eterna foi a empresa levada acabo pelo Espanhol Ponce de Léon, em busca da árvore (ou da fonte, segundo outros eruditos na matéria) da vida eterna.

Tais tentativas revelaram-se até agora infrutíferas! No entanto tem-se observado um aumento da esperança média de vida, fruto da melhoria das condições de higiéne e, principalmente, dos avanços da medicina!

Fruto de alguns artigos que li nas últimas National Geographic e de um curso sobre cancro a que estou a assistir, puz-me a pensar: "Será que quero ter uma viada longa!?" E daí a este post foi um pequeno passo!

A resposta, por muito que possa espantar o mais comum dos mortais, e até a mim próprio, é não! Olhando para a qualidade de vida das pessoas com 70 ou mais anos, é possível constactar que esta é tudo menos boa! Salvo raras excepções, porque há sempre uma excepção à regra, a grande maioria tem que tomar medicamentos todos os dias, muitos já contrairam cancros (sendo a tendencia para que isto aumente nas próximas gerações), acidentes vasculares também parecem estar ao virar da esquina, já para não falar nas doenças neurodegenerativas e nas dificuldade de locomoção que para além de dificultarem a vida dessas pessoas, também têm um impacto nos filhos ou outros responsáveis por essas pessoas!

Então, que idade gostaria de atingir!? Trata-se de uma pergunta complicada e deveras subjectiva! Mas uma análise rápida à questão levou-me a atingir estas 3 premissas. Antes de mais, sou apologista da teoria de que não compete aos pais enterrar os filhos. Depois não quero ser um fardo para ninguém, portanto ser capaz de ter uma vida mais ou menos normal seria um segundo factor. Terceiro e talvez último, ainda conseguir tirar algum prazer da vida, o que em muitos casos que conheço não acontece!

O que fazer então caso atinja uma idade em que tudo isto se passe? Não faço a mínima ideia! Cada coisa a seu tempo! Agora há que aproveitar a juventude, que a vida são 2 dias...

Cumprimentos,

RC

quarta-feira, abril 19, 2006

Cemitério de namoradas.

Todos os nomes são falsos e os detalhes alterados, de forma a proteger as identidades. As emocões descritas, infelizmente, são reais.

Kristine acabou a relacão comigo porque achava que as nossas personalidades eram incompatíveis. Signe via as nossas diferencas de fundo cultural como um obstáculo intrasponível, para além de se ter mudado para Oslo três semanas depois de termos comecado a sair juntos. Mari mudou-se para a Irlanda depois de cinco meses juntos comigo. Entretanto arranjou um par de sucessores. Jane não queria uma relacão séria. Kaia vivia na Alemanha, e nunca mais a vi. Alex voltou para a Polónia e vive feliz numa relacão estável que tem durado à mais de três anos agora. Helen considerava a distância entre a sua cidade-natal na Dinamarca e o meu local de trabalho em Trondheim como um fardo económico. Inger nunca me respondia aos telefonemas, e quando o fazia era extremamente evasiva. Hilde confessou a sua paixão por mim na última semana antes de voltar para a Alemanha, e embora fosse uma atraccão sobejamente recíproca, falhou por tardar. Kristi rejeitou-me por vivermos no mesmo apartamento - pelo menos essa foi a desculpa oficial. Frederika continua a telefonar-me regularmente, e continua tão simpática como sempre. Entretanto pensa em casar com o seu namorado austríaco, e vivem felizes juntos em Cascais. Birte decidiu acabar o curso de medicina no Brasil e nunca mais me telefonou. Creio que ainda está recentida pela maneira como terminei com ela. Eirin arranjou emprego como observadora internacional na fronteira afegã. Nunca descobri se as minhas suspeitas sobre a maneira como ela me olhava enquanto falávamos escondiam algo mais para além de interesse intelectual. Tine- era Tine ou Stine? - nunca mais telefonou depois daquela noite. Tove era demasiado alta. Turhild j´tinha namorado. Åsa dormia com todos e Vanja só dormia com Jesus. Johanne escreveu-me muitas e longas cartas, mas nunca se atreveu a encontrar-me, mesmo depois das minhas cinco visitas a Gotemburgo para encontrá-la....


Etc, etc, etc, etc...

Quando é que esta história acaba?

Acorda um homem um dia com a ressaca de ter 28 anos e continuar solteiro, solteirissimo, solteirão. Entretanto casaram-se, ou estão a caminho de o fazer, todos os colegas de escola, de curso, de emprego, com algumas raras excepcões. O Manuel, que prefere a sua guitarra aos prazeres ilícitos com o sexo oposto. Ou o João, cujas visitas assíduas ao bordel local satisfazem as necessidades. Ou a Andreia, que muitos não têm a certeza de ser homem ou mulher depois do primeiro encontro. E eu. Naturalmente. Sem saber muito bem porquê, embaracado de me incluir neste grupo.

As noites e os fins-de-semana preenchem-se com idas ao cinema, livros, muitos livros, teatro, internet, e, inevitavelmente, trabalho. E viagens. Sempre sozinho. Uma pessoa habitua-se a ter os seus próprios pensamentos como companhia.

Sexo é algo que se vê na televisão e cuja vida nos premeia muito ocasionalmente, frequentemente associado com alcoól, raramente duas vezes seguidas com a mesma pessoa. Amor está na mesma categoria semântica que conceitos como vida extraterrestre, Sporting campeão europeu e fusão nuclear a frio. Saudade é um luxo precioso, cuja expressão pública confunde-se com stalking. Desilusão é mau perder, tristeza um mal privado. Intimidade, tanto física como emocional, um sonho e uma utopia irrealizável.

Calculo que um terco da minha vida adulta foi perdida em melancolia e tristeza associada a solidão ou desgostos de amor. Com evidentes consequências na vida profissional, para além do desgaste psíquico na vida privada.

Acontece-me frequentemente remeter-me a passeios por paisagens imaginárias, cenários desenterrados da memória, de mãos dadas com os fantasmas que o olvido tomou, em diálogos longos e profundos com os espectros do meu passado. No meu cemitério de namoradas, lajes de côres, cheiros e experiências que não voltarão jamais.

Uma última e única arma resta-me no meu arsenal, para além do cinismo e da indiferenca. Sorrir. Sorrir é a última esperanca e o último consolo. Uma vez perdida a capacidade de sorrir, então já não sobra nada.

:-)

terça-feira, abril 18, 2006

Briosa!

Hoje fui ver um jogo de hoquei no gelo!
Tivemos direito a camisolas da equipa da casa (Edmonton Oilers) que já estavam apurados para os playoffs, mas resolvi retomar uma velha tradição que tanto prazer me dava. É claro que o meu cachecol da Briosa me acompanhou até terras geladas, não por uma questão de frio, mas porque achei que um dia poderia dar jeito à minha/nossa Briosa enquanto ouvisse o relato. Mas como a nossa Briosa até nem se está a portar mal, hoje resolvi levá-lo comigo e ver se as minhas superstições ainda funcionam.
E lá vou eu de cachecol na mão a entrar na arena (como habitualmente) e lá me sento no meu lugar e coloco o cachecol à volta do pescoço (como habitualmente), e ao primeiro apito do jogo enrolo o cachecol à volta do pescoço e sofro o jogo inteiro (como habitualmente).
E não querem ver que os gajos ganharam mesmo?
Sinto falta dos domingos de bola no velhino Calhabé, no Sergio Conceição ou no novo Cidade de Coimbra, rodeado de amigos com as suas superstições, de berrar mais de noventa minutos e de sair de lá com menos uns pesos na minha cabeça. Por muito que falem do ambiente dos jogos de hoquei por aqui, e por muito fanáticos que sejam, nada chega aos calcanhares dos jogos da briosa mesmo ao lado da mancha negra...
Um abraço que agora é tempo de trabalhar!
Virgilio Cadete

segunda-feira, abril 17, 2006

Páscoa na Suécia com sabores portugueses!

Foi a segunda Páscoa que passei na Suécia e pela segunda vez a malta portuguesa reuniu-se num longo almoço!

A Páscoa nunca foi uma altura do ano pela qual desesperasse! Era altura de visitar familia que só se lembra de nós nestas alturas. e que nos recebia com aqueles sorrisos hipócritas e os comentários da praxe! Talvez por isso evito sempre ir a casa nesta altura. Prefiro ficar a trabalhar ou a descansar e ir na altura da queima que me diz muito mais, apesar de cada vez haver menos pessoas com disponibilidade para me fazerem companhia numa noitada a recordar os velhos tempos! As únicas boas recordações da Páscoa eram os doces, as comidas, os cheiros e, claro, as curtas férias!

Pois tanto no ano que passou como neste fim de semana que agora termina, a malta "Tuga" pos mãos à obra e foi capaz de preparar repastos de fazer inveja a muito boa gente. Este ano lá estava o bacalhau e o cabrito que durante anos fizeram parte dos meus almoços de Páscoa. Lá estavam as discussões mais ou menos acaloradas sobre a vida. Lá estava o belo do néctar dos deuses a amolecer-nos. Lá se deu um passeio aproveitando as tréguas que a meteorologia nos deu nesse Domingo de Páscoa, tentando "assentar" a comida para mais tarde se voltar para terminar o que se tinha começado!

É curioso, como num país estrangeiro, com hábitos culinários tão diferentes dos nossos, seja possível encontrarmos todos os ingredientes necessários à preparação destas iguarias!

A todos os que tornam possíveis estes dias o meu muito obrigado!

Cumprimentos,

RC

domingo, abril 16, 2006

Portugal 2-0 Argentina


Ao fim de um ano no Rio de Janeiro fui pela primeira vez ao Corcovado com uma amiga minha que veio visitar-me... Cleia Almeida (a Sónia do último filme do João Canijo: Noite Escura) e encontrámos uns gajos (um Francês e outro Argentino) : naturalmente o futebol surge sempre como mote de uma conversa em que Luís Figo serve de mola impulsionadora à discussão desse mesmo tema... quando se fala de Portugal. Inevitável.

Pois é... quando se fala de Portugal... a principal referência é Figo... mas o que eu não entendi é como é que o Argentino pode dizer que não gosta ( pessimo... pessimo ) do Cristiano Ronaldo e do Deco (!?)...

A respeito deste último o f.d.p. do Argentino disse que não sabe em que posição é que Deco joga (!!!!!!!!)... a posição do Deco no Barcelona chama-se: todo o jogo passa por ele... disse-lhe eu. Sendo o Deco um dos melhores jogadores do mundo nos últimos três anos e a jogar num dos melhores clube do mundo... é estranho um Argentino não saber em que posição joga Deco (inclusive ao lado do novo Maradona: Messi)... quando o f.d.p. do Argentino me falou do Messi eu retorqui: pessimo... pessimo... e o gajo ficou maluco!!!!

Enfim... ao conversarmos sobre outros assuntos comecei a verificar que a cultura geral do f.d.p. do Argentino não era a melhor possível: inconsciência política, desorientação geográfica e desconhecimento das suas origens: como é que um Argentino pode perguntar porque é que na América do Sul só se fala português ou castelhano??? Mas o pior mesmo foi quando eu lhe disse que há 500 anos atrás o mundo praticamente estava dividido em 2 no que diz respeito à expanção marítima acordada entre Portugal e Castela (Espanha): Tratado de Tordesilhas!!!!!

Reacção do f.d. p. do Argentino: Sério!?...

Dá para perceber agora porque não sabia ele em que posição Deco joga no Barcelona...

Despedi-me dele com um desejo e uma fala: Portugal no Mundial depois da fase de grupos vai jogar com o grupo C (Argentina,Holanda, Costa Marfim e Sérvia Montenegro)... e eu espero que jogue com a Argentina e que Portugal ganhe 2-0 golos de Deco e Cristiano Ronaldo...

Vai ser complicado... eu sei... mas não impossível.... mas é só para o f.d.p. do Argentino aprender.
F.d.p. são todos aqueles que dizem mal do Deco e Cristiano Ronaldo...

Vasco Lopes
Rio de Janeiro

quarta-feira, abril 12, 2006

V for Vendetta



Os irmãos Wachowski hão-de ser sempre recordados pelo seu trabalho revolucionário na criacão do universo apresentado na triologia da "Matriz". Pela primeira vez na história do cinema foi-nos apresentada uma versão inspirada no ambiente sci-fi da BD de uma forma totalmente satisfatória até para o mais exigente apreciador de literatura de fantasia. A "Matriz" é uma mescla de épico futurista, visão tecnológica, romance de accão e ensaio de filosofia num só, soberbamente empacotada com os mais avancados efeitos visuais do virar do século XXI. Daí a minha curiosidade em relacão ao seu trabalho seguinte, nomeadamente, "V for Vendetta" ("V de Vinganca" na [feliz] traducão portuguesa).

Mais uma vez partiu-se do imaginário BD. O filme é uma adaptacão da novela gráfica homónima de Alan Moore e David Lloyd (desenhador) publicada originalmente pela editora Quality Comics na Grã-Bretanha entre 1982 e 1988. Na altura em que foi publicada, a história servia o leitor com um ataque directo às políticas conservadoras do governo de Margaret Thatcher. Ao ver o filme, fica-se com a (forte) impressão de que o foco de crítica nesta versão é orientado claramente na direccão da regente administracão norte-americana: a tal ponto que levou a que Moore expressasse o desejo da retirada do seu nome no genérico final. As conotacões e opiniões políticas expressas no filme apresentam um debate entre o neo-conservatorismo versus liberalismo na sociedade norte-americana. Na obra original o autor pretendia que o leitor reflectisse sobre a oposicão entre um estado fascista totalitário e uma sociedade anárquica, e sobre a validade do uso de quaisqueres meios para atingir um fim. A figura do herói era moralmente ambígua e cabia ao leitor julgá-lo: determinar se V era são ou insano, herói ou vilão. V é, sem sombra de dúvida, um terrorista. Na versão cinematográfica, a narrativa acaba por forcar esse julgamento numa direccão favorável a V.

É curioso saber que os irmãos Wachowski escreveram uma primeira versão do script durante a década de ´90, ainda antes de se debrucarem sobre o projecto da "Matriz". Face aos desenvolvimentos mais recentes da histórial, o tema deste filme tornou-se tremendamente actual. O governo fascista representado no filme persegue, encarcera e tortura os imigrantes, os muculmanos e os homossexuais. O tema da liberdade de expressão e da independência dos canais de informacão é exposto através da relacão entre o canal principal BTN e o estado (algumas vozes teceram aqui um paralelo com a relacão entre a Fox News e o governo americano). O uso dos sacos negros na deslocacão de prisioneiros políticos lembra as imagens da base de Guantanamo. O uso de sistemas de vigilância de vídeo para o incremento da seguranca pública atinge um ponto hilariante neste filme quando pensarmos que Londres é a cidade com a maior concentracão destes sistemas no mundo. Tudo isto "for your own protection", segundo os letreiros espalhados pelo país. O maior vilão deste filme acaba por ser, não os dirigentes ou o partido que se senta no poder, mas sim a própria populacão que os colocou lá por forca do medo e do conformismo - mensagem política omnipresente, à la Michael Moore. Eu colocaria este filme na mesma categoria que os recentes "Syriana" e "Good Night and Good Luck", embora se trate de uma ficcão colhida da cultura pop.

A própria escolha dos actores tem um toque de ironia. John Hurt (Chanceler Sutler) interpretou o oprimido Winston Smith na adaptacão de "1984" de Michael Radford; e Natalie Portman (Evey) é americana de ascendência israelita que rapa o cabelo numa cena que evoca os campos de concentracão nazis (Evey personifica uma heroína quase totalmente passiva; ela é os olhos da narracão neste filme). Hugo Weaving (V) empresta a sua presenca física e a sua voz para ditar longos monólogos teatrais quasi-shakespereanos, deixando uma certa impressão de que assistimos a uma versão politizada do "Fantasma da Ópera" de Gaston Leroux. Talvez seja ainda cedo para tecer pontes entre os diversos filmes produtos da imaginacão Wachowskiana, mas entre "V" e "Matriz" encontramos vários pontos em comum: um herói sobre-humano e trágico que oferece a sua vida pelo bem da humanidade (V/Neo); uma heroína secundária com um papel menor mas determinante, com tracos andróginos (Evey/Trinity) e com uma ligacão emocional com o herói que se vai fortalecendo ao longo da história; um cenário futurístico e tecnológico resultado de um acontecimento passado global semi-apocalíptico; uma sociedade reprimida e carente de liberdade individual; a massa anónima da humanidade que anseia por ser libertada, um anseio primeiramente inconsciente e que se vai tornando mais e mais evidenciado com o desenrolar da narrativa. Curiosamente, quase apetece incluir a saga de Star Wars neste grupo - terá sido uma fonte de inspiracão?

Em conclusão, não recomendo este filme para aqueles que pretendem regalar-se com um filme de accão recheado de avancados efeitos especiais e cenas de luta detalhadamente coreografadas. O ritmo do filme é quase teatral. O filme é rico em referências cruzadas, desde Shakespeare a Dumas, e requer uma certa dose de conhecimento contextual histórico/político de forma a se compreender as muitas insinuacões que se escondem no enredo. É um filme intelectualmente rico, embora por vezes moralmente confuso. "V for Vendetta" é uma espécie de versão moderna de "1984" de Orwell apresentada pelo duo de nerds mais enigmático dos últimos anos.

E, independentemente do enredo e à falta de outras desculpas para ir ao cinema, Natalie Portman é a cabeca rapada mais atraente desde Sinnead O´Connor ... ;-)


terça-feira, abril 11, 2006

Impossivel escrever

As minhas desculpas a todos mas foi mesmo impossivel colocar um texto para hoje e durante o dia de hoje sera ainda mais complicado. Se possivel, no final do dia de hoje por aqui (amanha para voces) tentarei escrever.
Mais uma vez as minhas desculpas a todos!
Abracos,
Virgilio

segunda-feira, abril 10, 2006

Quem me dera...

Quem nunca disse, "Quem me dera voltar atrás" ou "soubesse eu o que sei hoje"!?

Este fim de semana, numa das minhas incursões a esse expoente máximo do capitalismo, de seu nome ikea, dei por mim a olhar para os putos! Não, não foi com intenções pedófilas! Foi com inveja!!!

Mas inveja de quê, perguntam vocês!?

Já por várias vezes, quando de visita a sítios como o MacDonalds, onde existem aqueles parques para os miúdos brincarem, tinha sentido inveja dos miúdos! No meu tempo de criança não havia daqueles escorregas, tuneis, brincadeiras! E o pior de tudo é que aquilo é transparente e mesmo não se querendo tem que se olhar!

Mas este fim de semana, o cérebro começou a fervilhar! Imaginem que em vez de andar a brincar às escondidas nos pinhais, como eu e os amigos de infância faziamos, e chegar a casa preto da areia beirã, que a malta se metia no ikea a jogar às escondidas. Mas há melhor sitio! As portas dos armários das cozinhas, os guarda-vestidos, as camas, bem...tanto sítio onde um miudo se pode esconder, tornando o jogo super emotivo!

Depois, já mais calmo, no aconchego do lar, rodeado por mobília de marca ikea, lá meti o dedo na consciência e percebi que não trocava por nada deste mundo os jogos às escondidas nos pinhais, o jogar à bola na terra preta, seca e poeirenta do sol de Agosto, os mergulhos nas valas, o andar a cavalo, o ajudar os avós nas terras, o andar aos ninhos (se bem que hoje seja contra...), o construir de cabanas, o construir de plataformas no cimo das árvores, o jogar às cartas nas plataformas a 20 m do chão!

De facto não trocava isso por nada, mas que gostava de ser criança por um dia num ikea gostava.

Cumprimentos nostálgicos de quem vê o tempo a andar a 100 à hora!

RC

domingo, abril 09, 2006

Sociedade de Consumo


“Nós não compramos simplesmente um cartão de crédito, compramos a forma de vida que está implícita nele”.

Mediante essa premissa pode-se concluir que o imaginário da Sociedade Contemporânea está sensivelmente relacionado ao Consumo e a mecanismos de produção, associação e construção de imagens, mas sinceramente, será possível viver sem estar preso a uma imagem!?…
Creio que não…
Todos os locais que percorremos estão açambarcados de imagens… na paragem do autocarro, no metro, nos prédios, nos restaurantes, na rua, a tv em casa,… enfim… acordamos e vivemos em função dessas imagens… não podemos fechar os olhos. Mas isto é violento… porra. Não é uma violência física, mas sim violência intra-psíquica individual ou mesmo violência social quando a realidade traumática é negada pela Sociedade [a partir do contexto grupal comunitário e de suas instituições]. A falta do reconhecimento desse traumatismo real produz uma violência social enlouquecedora que já virou mercadoria nessa ‘civilização do mal-estar’. Mas enfim… a crítica constante a esse sistema [no qual estamos todos inseridos] propõe uma destruição dessa mesma Sociedade de Consumo, mas creio que neste momento é uma luta que não vale a pena……………….
A falta de perspectiva que define o homem pós-moderno numa economia globalizada, o stress, a construção de imagens, as ideias subversivas da desvalorização da vida humana, o desiquilíbrio mental levam à lógica de consumo. Inevitável e irreversivelmete…
Lá construíram outro shopping…
- Pai, mãe… leva-me ao Fórum Coimbra!
Vasco Lopes
Rio de Janeiro

sábado, abril 08, 2006

Quem não chora, não come?

vou contar-vos um episódio para contextualizar um pouco o assunto que hoje vos trago.
Quando eu era um teenager inconsciente, bateu-me a porta um pedinte! Dizia que tinha fome e não tinha emprego nem dinheiro... Logo lhe foi oferecida a fruta que tínhamos em casa para ajudar uma pessoa obviamente necessitada.
Até emprego lhe foi oferecido: '8h da manha esteja aqui'! Mas quando soube que era para trabalhar na construção civil, logo disse que não era a sua área... (quer fazer carreira como pedinte, pensei eu...) Obviamente, dinheiro foi coisa que não lhe demos!
Lembrei-me disto hoje, quando ia no Metro, para levantar o meu BI na famigerada Loja do Cidadão. Chateia-me ir no Metro, (pouco) descansado da vida e ter de sentir pena do gajo que vai a tocar acordeão e que anda com um menino, dos seus 8 anos, a pedir esmolas aos passageiros do comboio. Provavelmente se lhe oferecesse emprego dir-me-ia que não está interessado em trabalhar. Deve ganhar-se bem a tocar umas gaitadas no Metro. Por isso recuso-me a dar uma esmola aos pedintes, a menos que me esteja a incomodar o peso das moedas!
Pode parecer um pouco insensível da minha parte, mas se por um lado há pessoas a quem a vida simplesmente não sorriu e que nunca tiveram possibilidades para conseguir melhor vida, por outro lado há muito homenzinho por aí, com bom corpo para trabalhar, e que preferem dedicar-se à vida de mendigo.
Revolta-me que depois vá ao Supermercado e veja ciganas a ameaçar os seguranças que "quando saíres daqui vais ver o que te espera lá fora" simplesmente porque o homem fazia o seu trabalho - garantir que toda a gente se comportava de forma civilizada e mais ou menos ordeira. Provavelmente foi a esmola do agente da Securitas que pagou o pacote de arroz que a mulher levava na mão e que certamente seria o jantar para ela e para a criança que levava no braço.
Que Mundo este.

terça-feira, abril 04, 2006

Grounded!

Lembro-me que, há dois anos atrás, um dos meus supervisores preparava uma viagem a Praga com o objectivo de participar numa conferência a decorrer nessa cidade. Como meio de transporte, decidiu-se a tomar um comboio. Interroguei-o então sobre a possibilidade utilizar avião, como alternativa mais rápida e mais barata. A resposta que ele me deu alertou-me para um problema sobre o qual nunca antes tinha empregado a devida atencão: o impacto ecológico da aviacão moderna e a expansão comercial do seu uso.

Durante muitas décadas, a aviacão destinava-se a uso exclusivamente militar ou científico. Mais tarde, desenvolveu-se a aviacão comercial e no princípio esta era restringida aos bolsos mais abastados da sociedade. Mas com os desenvolvimentos tecnológicos e económicos das últimas décadas, voar tornou-se bastante acessível para a classe média ocidental. Especialmente nos últimos anos, com o aparecimento e desenvolvimento das viagens de baixo custo por parte de empresas como a Ryan Air, por exemplo, tornou-se uma pechincha viajar para qualquer parte do continente a precos impensados uns anos atrás. Aos precos que se praticam hoje em dia, pode-se dizer que é mais barato ir para o outro canto da Europa, quando planeada a viagem com antecedência, do que uma curta deslocacão de automóvel dentro do seu próprio país.

Mas alguma vez pensaram na quantidade de combustível que um 747 consome por cada deslocagem? Ou no impacto ambiental dos gases de estufa libertados por um jacto na alta atmosfera?

Não é minha intencão neste post expôr dados de quanto é que um avião comercial consome em combustível e que quantidades de poluentes este liberta. Mas asseguro-vos que é industrial. Não tenho tempo agora para confirmar factos na net, mas ouco uma voz no fundo da minha memória a gritar um número: que uma viagem de avião de Londres a Nova York liberta o equivalente em poluentes à mesma distância percorrida de automóvel quarenta vezes (por passageiro!)!. [Ver os seguintes links: 1, 2, 3, 4, 5]

Os últimos invernos escandinavos têm sido extraordinariamente quentes. Amigos em Svalbard (ilha norueguesa situada a 78 graus de latitude norte) queixam-se dos problemas climáticos nos pólos. A populacão de ursos polares encontra-se ameacada com o derretimento das calotes polares. Os efeitos climáticos em latitudes mais baixas também já comecam a notar-se de uma forma mais acentuada: basta recordar as catástrofes naturais que se viveram este ano no sul dos EUA com ciclones tropicais a tornarem-se cada vez mais frequentes. A temperatura global do planeta está a aumentar e com a explosão económica de novos mercados, como a China, apenas aumentará a emissão de maior quantidade de gases poluentes atmosféricos. Para piorar, há o desprezo por parte dos EUA, o maior contribuinte na emissão de gases com efeitos de estufa, do protocolo de Kyoto.

Para além do impacto ambiental, existe também o problema do combustível. Afinal de contas, o querosene é um derivado do petróleo, que, como todos sabem, é uma fonte de energia não-renovável. Recentemente li uma reportagem dada pelo primeiro-ministro sueco Göran Persson sobre a sua política ambiental corrente. Um dos maiores focos políticos do governo sueco actual é o planeamento da substituicão do uso do petróleo como matéria-prima vital na economia sueca. Segundo Persson, depois de várias reuniões com os responsáveis das maiores empresas suecas e especialistas de vários campos tecnológicos, a aviacão, utilizando a tecnologia actual, pode dar-se como extinta após o esgotamento das reservas petrolíferas a nível planetário. Não existe alternativa tecnológica ao uso do petróleo como combustível na aviacão moderna.

A nível pessoal, viajar é um dos meus maiores prazeres. E dadas as exigências impostas pelo dever profissional, convém viajar depressa e barato. Mas quando tomo em consideracão os custos ambientais, se calhar é melhor planear melhor as minhas viagens e escolher outros meios de transporte. Às vezes é preciso fazer pequenos sacrifícios pessoais para se obter uma sociedade melhor e mais saudável. E é a partir destes pequenos esforcos individuais e da consciêncializacão global destes factos que se pode reverter um cenário global futuro catastrófico.

Os do costume

Velhos hábitos são dificeis de perder! E muitas vezes pela manhã lá vou eu ao Macs (loja de conveniencia aberta 24/7) e a frase que mais disse nos ultimos dias foi:
- Can I get a pack of Dunhil please?
E lá pagava os 10 dólares e qualquer coisa.
Mas como por aqui sabem todos ao mesmo (sim, para os fumadores que me compreendem, o tabaco é todo feito no Canadá e sabe todo ao mesmo, só muda a marca e o tamanho) e arranjo a mesma quantidade por um preço mais barato, na sexta resolvi mudar:
- Can I get a pack of Canadian Classics, king size?
E de repente fiquei surpreendido:
- No Dunhil today?
Não é que eu seja mesmo cliente habitual, não é que seja mais simpático que noutros sítios onde regularmente vou, mas este comentário fez com que hoje lá voltasse pela manhã e tivesse uma vontade enorme de dizer:
- Por favor, o habitual! Como tantas vezes dizia em Coimbra ou na Pampilhosa, nos locais habituais, aos empregados habituais.
Parece que aos poucos começo a sentir esta cidade como minha também, e por vezes dou por mim a falar português com as pessoas habituais que fazem uma cara estranha pois não percebem o que digo.
E apesar de me sentir cada vez mais à vontade por aqui, sinto-me cada vez mais português, orgulhosamente português!
Abraço donde a neve já parece uma miragem!
Virgilio

segunda-feira, abril 03, 2006

Rábula de uma lei!

Era uma vez um país no qual os seus governantes, como têm muito tempo livre, resolviam perder tempo a aprovar leis sem que depois realizassem as necessárias diligências para que constatar se estas estariam ou não a ser aprovadas!

Surge esta estória a propósito de lei que proibiu a venda de tabaco a menores de 16 anos. Poderá o leitor pensar que é óbvio que seja proibido vender tabaco a menores, por todos os malefícios que este provoca, mas o que é certo é que, fruto de pressões internacionais (leia-se directivas comunitárias), foi necessário proibir o que já devia ser proibido há muitos anos! Mas a estória é bem mais complexa! A discussão desta lei começou na anterior legislatura, dirigida então por um consumidor regular de fumo passivo em locais de diversão nocturnos. Falou-se que iriamos seguir os (bons) exemplos nórdicos e proibir o fumo em locais público. No final, já com um novo governo, proibiu-se apenas o fumo no local de trabalho e a proibição da sua venda a menores de 16! Pelo meio, quando ainda se discutia a aplicação da lei a todos os recintos públicos, ainda surgiu um ministro da saúde a dizer que não se iria aumentar a fiscalização, contando com o bom senso de todos para que a lei fosse cumprida! Como não foi aprovada esta proibição, não foi preciso recorrer ao bom senso de todos...

Mas o que aconteceu de facto!? O Zé Manel (nome fictício de um dos muitos trabalhadores da noite) sente-se desrespeitado pois o governo não o considerou trabalhador. Enquanto inalava o fumo do seu cigarro com sabor a mentol, o Zé explicou que o governo ao proibir o fumo no trabalho, não o proibiu no local onde ele trabalha! Queixa-se o Zé Manel que devido ao fumo não consegue ver bem as miudas aos saltos na pista de dança, já que o bar dista uns quantos metros desta! "Imaginem se tivéssemos daquelas coisas que deitam fumo com cheiro a baunilha! Aí nem os decotes ao balcão eu conseguia ver!" "Mas então eu não sou considerado trabalhador para que o fumo não seja proibido no meu local de trabalho!?"

Mas passando áqueles a quem a lei foi de facto dirigida, escutámos a opinião de um grupo de amigos que desgustavam um mesmo cigarro, que ia rodando de mão em mão lá no jardim do bairro! Com voz de quem ainda não habituou os pulmões ao fumo, todos dizem que não sabiam da lei, mas que normalmente nem se dirigem a uma loja para comprar tabaco! Diz o Packo, ali à entrada do café há uma máquina. Põe-se o dinheiro e o maço sai!

Pois foi, aprovou-se uma lei que proibe a venda de tabaco a menores de 16, mas não se retiraram as máquinas de moedas que estão acessíveis um pouco por todo lado. Ou não se retirando as máquinas de moedas, poderiam imitar outros países civilizados e obrigar o cliente a ir ao balcão comprar a ficha para a máquina, ficando forçado, em caso de dúvida do vendedor, a mostrar a identificação para comprovar a idade!

A Nocas, 14 anos, não está nada preocupada com a lei. Primeiro, no local onde costuma comprar o tabaco nunca lhe pediram identificação. Depois, se tal acontecesse, podia sempre pedir a alguém mais velho para lho comprar. "Os portugueses são um povo muito solidário, refere para reforçar a ideia!"

E assim vai este país. Seja debaixo do fumo de uma beata mal apagada ou do fumo dos incêndios, o povo parece que já não consegue viver sem o fumo, sendo ou não fumador! E entretanto continuam-se a aprovar leis apenas para se mostrar que se está activo!

Cumprimentos de um local onde até para comprar álcool já tive que mostrar ID,

RC

domingo, abril 02, 2006

O desejo do Outro




Em Fight Club, David Fincher (1999) as referências a Freud são inúmeras mas a diretriz principal seguida pelo filme é a dualidade do ser humano, entre as forças do inconsciente e a razão. A própria descrição de Tyler (alter ego) feita pelo narrador (protagonista) reforça essa afiguração dual do Outro. Tyler é responsável pela montagem de filmes a serem exibidos nos cinemas. No entanto, ele não faz o seu trabalho de forma convencional: entre uma cena e outra de um filme infantil, ele coloca fotogramas de órgãos genitais masculinos. Essa é uma clara metáfora sobre o subconsciente e seu papel nos sonhos. "Enquanto todos dormem, ele trabalha", (sonhos diurnos de Mascarello e Freud), diz o personagem de Norton, voice over.

Assim, o cinema seria comparável ao sonho e Tyler, ao subconsciente. Na teoria psicanalítica freudiana, o sonho seria o meio encontrado para o subconsciente se expressar. Além disso, o sexo (bem presente em várias sequências) e suas representações são o pilar fundamental de todas as neuroses e problemas psiquiátricos do ser humano. Tyler representa uma válvula de escape (fantasma) para o personagem sem nome interpretado por Norton. O relacionamento entre eles vai se estreitando, principalmente após o apartamento de Norton ir pelos ares. Na obra de Freud (O poeta e os sonhos diurnos , 1908) há um exemplo-chave que vai analisar o jogo infantil como analogia do fantasma, o famoso jogo do carrinho: a criança pequena tem um carrinho atado a um fio e atira-o fora do berço e volta a recolhê-lo. Um jogo repetitivo: quando atira o carrinho diz fort (fora) e quando o recolhe da (aqui).

A criança manifesta um verdadeiro regozijo perante este jogo a respeito do qual Freud vai dizer que a criança nao joga sozinha e que à partida se joga com o Outro materno. Este jogo está em reacção com a ausência da mãe, é com esta ausência com a qual a criança joga, joga com um Outro domesticado até ao ponto que se pode identificar com o carrinho mesmo. É neste conflito que o protagonista do filme em análise se encontra. Ele evoca um Outro Eu porque sentirá, necessariamente, a falta do anjo tutelar e maternal de figura feminina (Marla Singer). Devido aos actos-falhados não resolvidos ele terá de se auto-figurar numa afiguração idealizada na sua realidade (psíquica) e criar outra imagem (fantasma) de forma a satisfazer as suas necessidades e resolver os seus complexos. Acontece que, depois de tanto brincar com o seu amigo imaginário (fort-da) vezes consecutivas, ele próprio se emaranhou na fantasmagoria criada por si e criou mesmo outra pessoa (dualidade personificativa).
O protagonista joga com a ausência de um vulto feminino ( a mãe não aparece, mas aparece Bob com seios gigantescos e Marla, com quem somente o seu alter ego consegue relaccionar-se sexualmente), assim como a criança joga com a ausência da mãe, ausência que se faz presente do seu desejo; quando nao está, não se pode perguntar a que se deve essa ausência, mas sim qual é o seu desejo (?). Na angústia suscitada pelo enigma do desejo (evocação) do Outro materno a criança produz essa maquinação do Fort-Da.

Trata-se de domesticar esse desejo do Outro que suscita angústia e obter a partir desse fundo de angústia um prazer através da sua maquinação lúdica. O que ilustra este jogo é generalizado ao fantasma: o fantasma é uma máquina que se põe em jogo quando se manifesta o desejo do Outro (imagens subliminares em Fight Club - evocação), uma máquina destinada a proteger-se da angústia e coordenando o gozo ao prazer.


O fantasma desencadeia-se, portanto, quando encontramos uma falta do Outro, uma falta de significante que responda qual é o seu desejo (?). Perante este enigma do desejo do Outro a resposta é o fantasma. Ora, é sob esta conjuntura teórica que Fight Club, David Fincher (1999) se vai debruçar. É pelo desejo do outro (na sua realidade psíquica) que o protagonista vai evocar um alter ego que se manifesta em forma de imagens subliminares no inicio do filme: antes de Tyler Durden (o Outro) surgir em cena, a sua evocação é feita através do dispositivo técnico de 4 fotogramas isolados inseridos no decorrer do filme, tendo como intencionalidade expressiva o desejo pelo Outro. É isso que vemos.
Estas imagens inseridas no filme vão produzir mediação e rematerializar um mundo desaparecido, não só porque os fantasmas entram no mundo dos vivos através do aparelhos mediáticos ( no próprio filme -ficção dentro da ficção- Tyler Durden é projeccionista “ o circulozinho à direita quer dizer que se vai mudar de bobine” e ele coloca um fotograma pornográfico na mudança de bobines em filmes infantis e “o público não se apercebe”), mas principalmente porque são essas imagens subliminares (memórias/evocações) que nos transtornam no filme. Apesar desse efeito traduzir bem o que vive o personagem principal que está o tempo todo como que preso num sonho, dizendo o tempo todo que não sabe o que é real; isso tudo, o tempo todo, as imagens incomodam o leitor e deixa a leitura ser desconfortável. Não que isso seja uma desvantagem. É claro que não.
Vasco Lopes, Rio de janerio